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Que amei eu, miserável, em ti, ó meu furto, ó crime noturno de meus dezesseis anos? Porque não eras belo, já que eras furto. Mas, por acaso és algo para que eu fale contigo? Belas eram as peras que roubamos, por serem criaturas tuas, ó mais belo de todos os seres, criador de todos eles, Deus bom, Deus sumo bem e meu verdadeiro bem: belas eram aquelas peras! Porém, não eram elas o que cobiçava minha alma miserável. Eu as tinha em abundância, e melhores. Mas arranquei-as da árvore só para roubar, pois apenas colhidas joguei-as fora, saboreando nelas apenas a iniquidade, que me proporcionava prazer. Porque se alguma delas entrou em minha boca, somente o crime é que lhe deu sabor. E agora pergunto, Senhor meu Deus: que é que me deleitava no furto? Porque não encontro nenhuma formosura nele. Já não falo da beleza que reside na justiça e na prudência, mas nem sequer da que resplandece na inteligência do homem, na memória, nos sentidos ou na vida vegetativa; nem da que brilha nos astros, formosos em seus lugares, ou na terra e no mar, cheios de seres que, nascendo, sucedem aos que morrem; nem sequer da defeituosa e sombria formosura dos vícios enganadores.

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