Nesse mesmo ano tive de interromper meus estudos, quando voltei de Madaura, cidade vizinha, onde fora estudar literatura e oratória, enquanto se faziam os preparativos necessários para minha viagem mais longa a Cartago, custeada mais pelo arrojo de meu pai do que por seus bens, pois era ele muito modesto cidadão de Tagaste. Mas, a quem conto eu esses fatos? Certamente, não a ti, meu Deus, mas em tua presença conto essas coisas aos de minha estirpe, ao gênero humano, por pequena que seja a parcela dele que possa deparar com estas minhas páginas. E para quê? Para que eu, e quem me ler, pensemos de que profundo abismo se deve clamar a ti. E que há de mais próximo a teus ouvidos que o coração que te confessa e a vida que procede da fé? Quem havia então que não cumulasse a meu pai de louvores, pois, indo além das posses de sua casa, gastava com o filho quanto era necessário para tão longa viagem por causa de seus estudos? Porque muitos cidadãos, e muito mais ricos do que ele, não mostravam para com os filhos igual cuidado. Contudo, esse mesmo pai não se importava com o modo como eu crescia para ti, nem com quão casto eu fosse, contanto que fosse diserto, ou, para dizer melhor, deserto, por carecer de teu cultivo, ó Deus, único, verdadeiro e bom senhor de teu campo, o meu coração.
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