Escuta-me, ó Deus! Ai dos pecados dos homens! E isto o diz um homem, e tu te compadeces dele porque o fizeste, e não fizeste o pecado nele. Quem me há de lembrar o pecado de minha infância, já que ninguém está diante de ti limpo de pecado, nem mesmo a criança, cuja vida conta um só dia sobre a terra? Quem mo recordará? Acaso alguma criança ou menino de hoje, em quem vejo o que não me recordo de mim? E em que eu poderia pecar nesse tempo? Acaso por desejar o peito chorando? Porque se agora eu suspirasse com a mesma avidez, não pelo seio materno, mas pela comida própria de minha idade, seria escarnecido e repreendido com toda a justiça. Logo, era digno de repreensão o que eu então fazia; mas como não podia entender a quem me repreendesse, nem o costume, nem a razão permitiam que eu fosse repreendido. A prova está em que, segundo vamos crescendo, extirpamos e afastamos de nós essas coisas, e jamais vi homem sensato que, para limpar uma coisa, a prive do que tem de bom. Acaso, mesmo para aquele tempo, era bom pedir chorando o que não se me podia dar sem dano, indignar-se acremente com as pessoas livres que não se submetiam, assim como com os mais velhos, e até com meus próprios pais, e com muitíssimos outros, que, mais prudentes, não davam atenção aos sinais de meus caprichos, enquanto eu me esforçava por feri-las com meus golpes, quanto podia, por não obedecerem às minhas ordens, às quais seria prejudicial obedecer? Daqui se segue que o que é inocente nas crianças é a debilidade dos membros infantis, e não a alma. Certa vez vi e observei um menino invejoso. Ainda não falava, e já olhava pálido e com rosto amargurado para o irmãozinho de leite. Alguém ignora isso? Dizem que as mães e as amas podem esconjurar esse defeito com não sei que remédios. A não ser que se considere inocência o não suportar por companheiro na fonte do leite, que mana copiosa e abundante, ao que está necessitadíssimo do mesmo socorro, e que sustenta a vida apenas com esse alimento. Mas costuma-se tolerar indulgentemente essas faltas, não porque sejam nulas ou pequenas, mas porque hão de desaparecer com a idade. Pelo que, embora tais coisas sejam perdoáveis em um menino, se as achamos em um adulto, mal as podemos suportar.
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