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É no argumento ontológico que se apreende melhor a identidade do ser com a potência infinita da afirmação. Mas podemos dizer que seu valor aparece com mais força quando nele descobrimos, não mais um raciocínio que procura chegar a uma conclusão, mas uma visão imediata do nosso espírito, inseparável de cada uma de suas operações. É essa visão que se encontra admiravelmente expressa em Descartes, quando ele diz que o finito, tal como é apreendido no ato pelo qual penso (e do qual só tenho experiência pela dúvida), supõe o infinito de que é a limitação: um infinito em ato, e não um infinito em potência, que, como tal, traz precisamente em si a marca da limitação. (De fato, um infinito em potência só pode ser uma participação do finito no infinito: um infinito que consiste numa ampliação do finito e que, à medida que cresce, não cessa de acentuar aquilo que lhe falta.) Mas Descartes faz do infinito uma ideia da qual será preciso demonstrar em seguida que há um ser correspondente: esse é o objeto próprio do argumento ontológico. No entanto, impressiona ver com que rapidez ele passa por essa transição da ideia à existência. É como se essa passagem fosse evidente. Quase não há passagem: pois a ideia de Deus já é o ser de Deus. Como poderia ser de outro modo, se é verdade que essa ideia não pode estar contida em meu pensamento, mas que, antes, é meu pensamento que está contido nela, uma vez que ela o limita? Dirão mesmo que ela é uma ideia, no sentido de uma ideia objetiva, isto é, representativa de um ser que se distingue dela? Já no primeiro argumento em favor da existência de Deus, Descartes só remonta tão facilmente da perfeição em ideia à perfeição formal que ele exige da causa dessa ideia, o que nunca deixa de surpreender o leitor, porque já evoca o terceiro argumento, no qual o ser está presente em sua ideia, isto é, identifica-se com a própria presença da ideia. A partir daí, somos levados a adotar uma interpretação do argumento ontológico na qual a infinitude, ultrapassando a finitude do ato de meu pensamento, não é a simples infinitude de uma ideia definida como puro objeto de pensamento, mas a infinitude de um ato que se engendra eternamente e sem o qual meu pensamento não poderia se exercer, isto é, dar a si mesmo o ser. De modo que a subordinação do Cogito ao argumento ontológico é dupla: por um lado, e de maneira lógica, o infinito é a própria condição da subsistência do finito; por outro, e de maneira metafísica, o poder que o pensamento tem de dar a si mesmo o ser na escala do finito só pode ser atualizado pelo poder que ele tem de dar a si mesmo o ser na escala do infinito, poder do qual o Cogito humano exprime apenas a limitação.

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