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No ato da afirmação, há uma espécie de sobreposição do gnosiológico e do ontológico. Ora, se o gnosiológico nos faz participar do ontológico, ou se há um ser próprio do gnosiológico que não se pode colocar fora do ser do ontológico, a análise da afirmação também deve revelar-nos os caracteres fundamentais do próprio ser. Essa universalidade do ser, que nos obrigava a considerá-lo por inteiro como interior a si mesmo e a encontrar nele sua própria razão de ser, não pode receber uma interpretação estática; ela exprime apenas uma exigência do pensamento, cujo fundamento está na própria natureza da afirmação: pois a afirmação é, para si mesma, sua própria origem. Ela é criadora da interioridade, e nada há nela que seja exterior ao próprio ato que a põe. E a afirmação de qualquer objeto é apenas uma objetivação do próprio ato da afirmação. Essa interioridade de um ser em relação a si mesmo — um ser fora do qual nada há — pode ser considerada uma metáfora, caso se entenda que a relação entre interioridade e exterioridade é, ela mesma, uma relação espacial. Ao contrário, a interioridade espacial, na medida em que se opõe à exterioridade, não passa de uma sombra dessa interioridade mais secreta, a-espacial, que não é correlativa de nenhuma exterioridade. E, no entanto, ela é tal que não pode ser participada sem fazer aparecer uma exterioridade pura, a do espaço, na qual podemos reencontrar, sob forma figurada, uma interioridade relativa e derivada: a do ato de pensamento que a circunscreve. Mas essa interioridade espacial procura imitar a outra sem conseguir bastar-se; pois não apenas deixa fora de si uma outra exterioridade que a ultrapassa, como também, no círculo que a contém, ela própria é feita apenas da exterioridade recíproca de suas partes. Contudo, a interioridade de um ser em relação a si mesmo, quando exclui toda exterioridade, jamais pode ser a de um dado, que só tem sentido por oposição a um ato que o dá a si mesmo. Ela só pode ser a de um ato que reside somente em seu cumprimento, isto é, que é sempre criador de si mesmo. Assim nos aparece nossa própria liberdade em seu exercício puro: ela traz em si a possibilidade de todas as afirmações porque traz primeiro em si a afirmação de si mesma. Diremos desse ato que ele é em si, para traduzir essa perfeição da interioridade que, contudo, já não comporta nenhuma distinção entre um envolvente e um envolvido. Diremos, mais justamente, que ele é si mesmo, para assinalar que jamais é um dado para outro nem para si mesmo, ou ainda que só tem relação consigo mesmo, ou ainda que é a origem de todas as relações sem ser, ele próprio, uma relação. Diremos, enfim, que ele é causa de si, para exprimir que nada há nele além dele mesmo criando-se; não se pode, contudo, distinguir do si que cria um si criado, pois sua própria essência é ser sempre criador e jamais criado, sempre causador e jamais causado. E, sobretudo, não se pode introduzir o tempo como condição de tal ato: se é verdade que o ato, tão logo recebe algum limite, desdobra seus efeitos no tempo, em sua natureza própria de ato ele só se exerce no instante, manifestando assim, até mesmo no tempo, seu caráter propriamente intemporal.

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