Contudo, esse ser parmenidiano, que parece ser o mais pleno e o mais profundo, não será também o mais vazio e o mais estéril? Toda universalidade, com efeito, não é uma universalidade abstrata? E, para que o ser possa ser predicado de todas as coisas do mesmo modo, é preciso que nada diga de nenhuma delas. De modo que o conhecimento começaria para nós a partir do momento em que acrescentamos ao ser determinações que o enriquecem e o realizam. Mas é um paradoxo evidente considerar o ser como um abstrato. Ele é o todo que se pode dividir, mas ao qual nada se pode acrescentar. Não lhe acrescentamos suas determinações: nós as discernimos nele pela análise. Ao dizer que o ser envolve tudo o que é, não o reduzimos ao envolvente, por oposição ao envolvido, nem separamos aquilo que é do ser daquilo que é. Ao contrário, o ser de cada coisa é a sua própria concretude, e não um caráter que pudesse ser separado dela; e, se alguém objetar que não se pode identificar a concretude de uma coisa com a de outra, responderemos que cada coisa, enquanto distinta de todas as outras, é incapaz de bastar-se, e que seu ser reside no feixe de relações que a une a todas as demais, e por meio do qual cada uma desenha, por assim dizer, sobre o todo do ser, a configuração que lhe é própria. O ser é anterior à oposição entre o abstrato e o concreto; ou, antes, ele identifica a propriedade comum que permite dizer de cada coisa que ela é com aquela propriedade que a faz ser tal — isto é, que a põe em relação com todas as outras; do mesmo modo, é anterior à oposição entre a extensão e a compreensão, ou, antes, as conjuga em si tão estreitamente que, se parece ter somente sua extensão como compreensão, também é verdade dizer, inversamente, que tem sua compreensão como extensão.
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