Pular para o conteúdo

Há, na simples enunciação da palavra ser, uma espécie de exigência implacável e de invencível necessidade. Pois essa palavra, por si só, basta para pôr o objeto que designa, para mostrar que há alguma coisa — ainda que seja apenas a própria palavra — e para excluir o nada. Mas essa palavra tem uma virtude muito maior: ela nos obriga a reconhecer de imediato, e antes mesmo de qualquer experiência real, que o ser envolve toda experiência possível, que nada pode ser exterior nem à sua extensão nem à sua compreensão. Esse é o sentido da dupla afirmação de Parmênides — “o ser é, o não-ser não é” —, que podemos considerar como o ato de consciência metafísica sem o qual todo outro ato de pensamento perderia seu suporte e sua validade. E nenhuma dessas duas proposições é vã, se é verdade que a noção de ser é, de fato, a única que não podemos evocar sem sermos obrigados a afirmá-la, nem supô-la negada sem sermos obrigados a negar sua negação, de modo que, longe de temermos não poder encontrar o ser, devemos, ao contrário, estar certos de que não podemos escapar dele — o que confere à nossa existência um alcance e uma gravidade que, de outro modo, ela não teria. Podemos exprimir isso dizendo, primeiramente, que o ser é universal — isto é, que fora dele não há nada, e que esse nada nada é —; em seguida, que ele é unívoco — isto é, que, qualquer que seja a diferença entre seus modos (por exemplo, entre o possível e o realizado), ela não atinge o ser desses modos.

Remover destaque