Agora desejava outra coisa, uma coisa diferente, que ela mesma não sabia dizer. Sabia, mas tinha um nome esquisito. Ouvira-o na cidade e ficara um pouco admirada. Depois se habituara. E passara a desejar a coisa esquisita, o nome esquisito. Que nome seria? Esquecido. Procurou lembrar-se, inútil. Estava escuro, Fabiano andava no campo. O que ela desejava tinha uma forma e uma cor, mas Sinha Vitória não podia dizer que cor e que forma eram aquelas. E tinha um nome.
— Pia.
Ora, bolas! Lembrou-se da forma e da cor. A forma era bonita. Esforçou-se por tornar a vê-la com os olhos da alma. Não viu. Vira a cama de varas, imaginara a transformação dela numa cama de couro. Quis ver a coisa diferente. Em vão. E aquele nome feio, pia.
Levantou-se, aprumou-se, caminhou de um lado para outro. Tinha uma forma e uma cor, tinha um nome. Devia servir para alguma coisa. Fazia parte das casas da cidade. E Sinha Vitória desejava possuir uma, importantes, como as pessoas da cidade.
— Pia.
Palavra feia. Não sabia onde a metera na cabeça. Ouvira-a a várias pessoas, homens e mulheres. Alguém a pronunciara perto dela, na feira. E ela gravara a palavra, com a esperança de aprender qualquer coisa. Fora em conversa de gente instruída, umas tantas palavras que ela não compreendia. Que importava? Sinha Vitória sabia que as pessoas da cidade tinham muitas coisas que ela não tinha.
Pia. Nunca vira uma, mas tinha a certeza de que era um objeto valioso. Principalmente porque ouvira falar dele quando uma filha de Seu Tomás da bolandeira tinha vindo visitar a fazenda. Indagara à pequena se na cidade havia pia, e ela respondera que sim, havia. Então ficara convencida de que era necessário possuir uma pia.
Balançou a cabeça, lamentando a condição dela. Provavelmente as pias eram caras. E ela, pobre, sem nada, desejando uma coisa difícil! Necessário ir ver as pias, se aperfeiçoar. Uma grande ambição, mas talvez fosse possível. Com tanto trabalho, poderiam economizar dinheiro. Viriam tempos melhores, choveriam para os lados do sertão.
— Pia.
Era uma esquisitice. Não sabia para que serviam as pias. Sabia, entretanto, que eram úteis. A filha de Seu Tomás não falaria uma coisa à-toa. Uma pessoa da cidade, instruída, tinha dito que havia pias. E se havia, seria bom ter uma no seu rancho. Os outros viriam admirá-la, invejá-la. E ela, Sinha Vitória, possuiria uma coisa que os outros não tinham.
Não havia dúvida: as pessoas da cidade sabiam muitas coisas, serviam-se de objetos maravilhosos. E Sinha Vitória desejava aproximar-se delas, reproduzir as suas maneiras e os seus costumes.
Foi buscar um pote vazio, trouxe-o do bebedouro e colocou-o num canto da cozinha. Ficou a contemplá-lo. A vasilha de barro ali acocorada era uma pia, não tinha dúvida.