Pular para o conteúdo

Sinha Vitória tinha amanhecido nos seus azeites. Fora de propósito, dissera ao marido umas inconveniências a respeito da cama de varas. Fabiano, que não esperava semelhante desatino, apenas grunhira: — "Hum! hum!" E, recolhendo o chapéu de couro à arca da roupa, saíra para amansar um cavalo novo, pensando na mulher, que era um bicho esquisito, mulher de lua.

Sinha Vitória desejava possuir uma cama real, de couro e sucupira, igual à de Seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não sabia onde Seu Tomás arranjara aquela cama. Mas asseverava que era de couro e sucupira. Fabiano, que desconfiava da veracidade de Seu Tomás, tentara convencê-la de que ela se enganava, mas não insistira.

Agora pensava noutro objeto, também de categoria. Não sabia bem de que se tratava. Ouvira falar da coisa, muitas vezes, mas não tinha propriamente noção dela. Precisava consultar o marido, e isto lhe dava desgosto. Arreliar-se-ia por causa de uma palavra. Estava escuro, Fabiano andava no campo, não podia vê-la. E provavelmente nem sabia que ela existia. Sinha Vitória encolheu os ombros. Que importava que Fabiano soubesse ou não soubesse?

Trouxera do bebedouro um pote cheio até o gargalo, e desejava lavar as mãos. Mas o pote ficava em cima duma prateleira, e era difícil fazê-lo descer e torná-lo a colocar no lugar, sem auxílio. Pedir o braço de Fabiano, que estava ausente? Besteira. Uma criatura tão diminuída valer-se de uma criatura tão grande! Esforçar-se-ia, tentaria o impossível. Chegava a encolher-se toda, a fim de agarrar com a boca o gargalo do pote e puxá-lo. E ficava numa imobilidade rígida, receosa de que ele lhe caísse em cima da cabeça.

Naquele tempo a família vivia em sobressaltos, o chiqueiro e o curral estavam cheios, engordara bem. Um dia, quem sabe? Seria conveniente realizar o sonho. Não compreenderiam que realizá-lo era necessário. Sinha Vitória era uma pobre cabocla da fazenda. Nunca tinha visto uma cidade. Mas tinha certeza de que nas cidades as casas deviam ter o negócio que ela desejava.

Vivia dando voltas nos seus sonhos, vivia com esperança. Realizaria o sonho, e quando chegasse uma visita, ia mostrar a ela uma coisa de primeira, direitinha. A visita ficaria admirada, falaria nisso com as vizinhas, e as vizinhas invejavam Sinha Vitória. Ora, era preciso realizar aquele sonho. Iam-se transformar, e ela seria como as pessoas da cidade.

Assim pensando, Sinha Vitória lembrou-se da palavra. Pronunciou-a com uma satisfação de menina travessa. E acocorou-se na cozinha, junto à trempe. Desejou possuir aquilo, mesmo ignorando para que servia.

— Fabiano!

O marido estava no campo, não podia ouvir. Ninguém ouviria. E talvez a coisa não existisse. Sinha Vitória desejara durante meses uma cama de lastro de couro, e a cama de varas continuava firme. Na verdade não era firme: balançava e rangia. Seria bom substituí-la por uma cama de verdade. Ora, a cama estava ali, rangendo. Não havia meio de transformá-la. A palavra era: cama. E ela, Sinha Vitória, não tinha outra.

Nos Seus Azeites has loaded