O menino mais velho se aproximou, perguntou não sei que coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o, aludindo à roupa, ao calçado, aos objetos de uso doméstico. Em seguida, afastou-se e começou a andar de um lado para outro.
— Inferno!
Queria Sinha Vitória e os filhos felizes. Mas estava preso a uma terra, a um patrão, ao soldado amarelo, ao fiscal da prefeitura. Procurou em vão perceber o que eles desejavam dele. Certamente havia de livrar-se dessas pestes. Era impossível continuar a viver assim, arreliado, puxando facão, largando-o, tenso, desesperado.
Estirou o beiço, avançou uns passos no escuro. Mas sentiu frio, e foi-se arrepiando, morrendo de medo. Caminhou mais depressa. A fazenda enorme, a noite enorme, o mundo enorme. Estranha demais a claridade da lua, os objetos brilhando. Meteu-se entre as pedras, avançou cautelosamente, devagar, afastou-se, num desvio. Mas para onde se dirigia? Desandou. Voltou, inquieto. Precisava saber onde estava Sinha Vitória. Os juazeiros. O escuro estava demasiado denso. Apressou-se, amedrontado. Diante dele o caminho era incerto. Como poderia saber que caminho tomara Sinha Vitória? Mexeu na cabeça. Nada. Onde estaria Sinha Vitória? Onde estariam os meninos? Talvez estivessem perto. Quem sabe? Por que se ocultavam?
Chamou a mulher, em vão. Uma coruja piou. Estava perto. Onde estaria a coruja? Esticou o pescoço, pôs as mãos em concha junto às orelhas, para distinguir melhor a direção do ruído. Esquerda. Direita. Atrás. Não sabia onde estava a coruja. Ninguém saberia dizer onde estava a coruja. Bem. Não havia pensamento nenhum na cabeça dele. Olhou o céu, procurando constelações. Não as encontrou. O mundo estava disposto de maneira que ele não podia saber onde estava a coruja nem onde estava Sinha Vitória. Afligiu-se. Chamou de novo. Nada. O pio da coruja, que enchia o mundo de mistério, vinha da esquerda, da direita, de trás, de todos os lados. Desgraça. Estava perdido.