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Fabiano largou a faca, o braço amoleceu. Virou-se e afastou-se, inquieto. Aquele amarelo seria capaz de um desaforo. Vacilou, pensou. Besteira pensar. Tinha sido excelente a idéia de não pegar na faca. Vexame. Não era homem para amarrar um desgraçado daqueles. Não. Nunca havia feito mal a ninguém. Se matasse o soldado, iriam processá-lo, prenderiam Sinha Vitória e os meninos. Bem. E depois, matá-lo para quê? Ele estava ali quieto, mal se aguentando na sela, o mosquetão oscilando à garupa. Não tinha culpa de ser um infeliz.

Governo é que devia ter juízo.

Passou a língua nos beiços. Mataria o soldado amarelo? Ora, mataria. Tinha o direito, pois não tinha? Não tinha. Aquilo era besteira. Tolice considerar-se com direito de matar o soldado amarelo. Mas se fosse possível pegar-lhe uma surra, quebrar-lhe os ossos... Uma surra. Provavelmente o amarelo nem resistiria. Era uma sombra. Quase não se agüentava em pé. Pensou na família, nos filhos pequenos, em Sinha Vitória. Coitados. Iriam padecer por causa de um verme. Necessidade de matá-lo. Tinha necessidade de matá-lo? Não. Nunca vira o amarelo maltratar crianças, bater em mulher. Mas ele, Fabiano, fora maltratado.

O ódio que Fabiano sentia pelo soldado diminuiu. Se não fosse a família... Bem, o soldado era um infeliz. Estava ali, caindo do cavalo, morrendo de fome, amolecido pela aguardente que tomara na feira. Fabiano, ao contrário, tinha comido, tinha dormido, estava são e disposto, andara léguas e mais léguas sem cansaço. Se quisesse, amarrava o amarelo, tirava-lhe a carabina e a faca, fazia tudo sem dificuldade. Mas para quê? O soldado era um coitado. Por isso é que o governo o pagava mal. Ordinariamente os soldados têm família e filhos pequenos.

Esfregou as mãos satisfeito. Não matara o soldado amarelo. Estava bem, matá-lo? Não estava. Por que haveria de estar?

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