Nessa viagem, cansado, o espinhaço em arco, a cabeça pendida para a esquerda, Fabiano avistou um soldado amarelo, de número, montado num cavalo lazarento. O infeliz abriu caminho na beira da lagoa, por entre as pedras, e ganhou a estrada. Lá se encontravam o vaqueiro e o polícia.
Fabiano pisou firme no chão. Àquela hora, naquele lugar, não esperava deparar com a autoridade. Pôs-se em guarda, alargando as ventas e fungando como um cachorro.
O soldado amarelo desarmara o espírito. Como era pança? Ele e o amarelo! Ora, ora! Depois de tanta humilhação e tantos cães mordidos, acabava encontrando o valente, o que o levara ao xadrez, que o maltratara na cadeia.
Não havia engano. Era o inimigo, era um inimigo que se aproximava a cavalo, bamba na sela, o coronhão da carabina batendo nas coxas. Aquele infame amarelo tinha-o arrastado pelos cabelos, tinha-lhe batido, tinha-lhe dado um pontapé.
A lembrana da viagem à cadeia, da humilhação sofrida na presença de Sinha Vitória, dos aborrecimentos que suportava há meses, tudo fervia no espírito de Fabiano. A fome desapareceu, os ruídos da fazenda se apagaram. Eram como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. O ódio ia crescendo. Precisava matá-lo. Livrar-se daquele amarelo.
Chegou-se um pouco, torcendo a boca, impaciente. Tinha o direito de matar o soldado amarelo. Tinha. E não matava porque era uma cabra.
Fabiano contraiu-se, agarrou-se à faca. Uma pancada no pescoço e tudo se arranjaria. E a vontade dele se estirou na vertical, os olhos azuis baixaram-se para a direita e para a esquerda, fixaram-se na cabeça do cavalo que marchava muito perto. A cabeça do soldado estava a dois palmos da sua. Era uma cabeça inerte, chata por cima, com o osso saindo. Uma cabeça de soldado amarelo.