Amanheceram na cidade e logo se espalharam, Fabiano para um lado, Sinha Vitória para outro, os meninos atrás da mãe. O vaqueiro tinha resolvido tomar um trago. Entrou na bodega, pediu uma cachaça, bebeu-a, perguntou o preço e teve um sobressalto. Seu Inácio cobrara caro. Fabiano fingia sempre não perceber os furtos do vendeiro, mas a conta era exagerada.
Saiu indignado. Seu Inácio era um ladrão. Estava certo que Seu Inácio era um ladrão, mas não podia dizer isso. O nome do vendeiro andava em bocas de gente da cidade. Se ele, Fabiano, fosse falar mal de Seu Inácio, ninguém acreditaria. Fabiano era um bicho. Se dissesse alguma coisa, os homens da rua iam rir-se. Estava acostumado. Mas daquela vez a coisa era séria, havia perigo de a autoridade aparecer, metê-lo de novo no xadrez.
Engoliu a raiva e caminhou de cabeça baixa. As alpercatas batiam no chão branco e liso da rua, e ele estalava os dedos, fazendo uma conta. Tudo errado, naturalmente. Como podia ser, se os homens da cidade o embrulhavam? Estava acostumado, tinha sempre sido assim. Não entendia nada, mas desconfiava.
Passou diante da igreja. A festa estava no auge. Havia muita gente no adro, e os foguetes espocavam lá fora, junto ao cruzeiro. Um bando de crianças corria, armando barulho. Fabiano apertou o passo, desviou-se do arruído, entrou numa rua torta, que conduzia à bodega de Seu Inácio. Lembrou-se de que ali fora espancado e preso. Suspirou. Aquela bebida que tomara lhe pesava no estômago.
Continuou o passeio na rua da igreja e deparou com o soldado amarelo, que passou rente a ele, fardado e de arma ao ombro. Mecanicamente Fabiano levou a mão ao cinturão, mas o cinturão estava vazio. Não podia brigar com a autoridade, e resignou-se. Seria espancado de novo, preso de novo. Na certa o soldado o faria rolar na lama, outra vez, e ele se sujaria, lecionando desacato à autoridade, na calçada, ao meio-dia, debaixo dos olhos de todo o povo da cidade, vexame horrível.
O amarelo se afastou, e Fabiano saiu da rua, inquieto. Aquele amarelo seria capaz de um desaforo. Dava a impressão de estar bebendo, andando assim, torto, de pernas abertas. Olhou em torno com ódio. Várias vezes tinha pensado em mudar-se, largar aquelas bibocas onde não havia gente direita.