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Sinha Vitória estava na feira. Gastara trinta mil-réis num rosário de sementes de lágrimas e dez tostões em três varas de chita vermelha. Regatear, exigir o preço justo, nem pensou nisso. Não se conformava com os preços, mas estava disposta a pagar. Para que discutir? A vendedora queria ganhar as suas porcentagens. E o barulho das pessoas, as cores berrantes das fazendas, a gritaria dos negociantes que alteavam os preços alucinavam-na.

Vagou uma hora por ali, zonza, os meninos amarrados às saias. Depois marchou para a igreja. A festa continuava. Foguetes estouravam, o sino batia, no adro havia uma multidão e as crianças corriam entre as pessoas. Sinha Vitória arrumou-se num canto, os meninos ao lado.

A princípio tudo correu bem. As coisas que Sinha Vitória viu na igreja e na feira encantaram-na. As toalhas do altar, as velas, as pedras vermelhas do chão, os bancos brancos, as imagens e o lustre brilhante — tudo aquilo deslumbrou Sinha Vitória, que voltou à infância. Desejou agarrar-se a qualquer coisa, como fazem as crianças, mas teve vergonha e se encolheu. Passou a mão no rosário, apertou-o. Possuí-lo era como se tivesse parte naquelas maravilhas.

Saíram da igreja. No adro, Sinha Vitória viu moças bem vestidas, e a comparação que estabeleceu entre elas e si descontentou-a. Aquilo era um despropósito. Por que haviam as outras de ser diferentes dela? Iam vestidas de saias engomadas, e ela, Sinha Vitória, tinha uma saia sem engomar. Que diferença fazia isso?

Invejou as saias das outras, franzidas em roda, engomadas, cheias de rendas e fitas. Que despropósito! Ela, Sinha Vitória, era uma pobre cabocla da fazenda, e as outras eram moças importantes, da rua. Natural que andassem arrumadas. Mas eram de carne e osso como ela, comiam feijão e bebiam água como ela. Por que seria que elas se vestiam de um jeito e Sinha Vitória se vestia de outro jeito?

Deixou o adro, inquieta, mal-humorada. Meteu-se por uma rua estreita, depois por outra, topou com uma cadeia, ganhou um beco escuro. Os meninos arrastavam-se cansados. E Sinha Vitória ia aborrecida, pensando na cama que tinha comprado. O rosário engolia o dinheiro. Se não tivesse feito aquela compra maluca, eles se arranjariam melhor. Seria mesmo necessário saber rezar? Ter aquele rosário no pescoço era agradável. Mas provavelmente havia nisso muito desperdício.

Saíram da rua, botaram-se numa estrada quase deserta, e Sinha Vitória achou-se melhor. Ao longe, na beira do rio, subiram uma ladeira. Realmente tinham passado um dia nulo. Nada tinham conseguido. A festa, o passeio, tudo tinha sido inútil. Avistaram a fazenda. Os chocalhos das cabras tilintavam. Baleia corria no pátio. Fabiano estava atrasado. Sinha Vitória avançou, pisando com firmeza no chão. Que festa miserável!

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