Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas — ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.
Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como Seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
— Um homem, Fabiano.
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
E o chocalho dos badalos de ossos? Esperava com certeza que as fontes borbulhassem, que o riachinho se enchesse de água, que a bicheira se espalhasse pelas reses. Mataria um bezerro e comeria a carne antes que o patrão o expulsasse da casa. Mas ia depressa demais. Fabiano tinha medo que a fome chegasse de supetão e o apanhasse ali, na catinga vermelha, entre as árvores sem folhas. Não queria viver e morrer como um bicho.
Afastou esses pensamentos. Dali a pouco chegaria à beira do rio. Desejaria subir a ladeira e encontrar na cozinha Sinha Vitória acocorada junto à trempe, soprado o fogo. Os meninos estariam no barreiro, brincando com Baleia. A cachorra corria, farejando pegadas. Infelizmente Fabiano tinha obrigações. Apertava-lhe o coração deixar a casa vazia. Mas ele era vaqueiro, sinha Vitória costureira, e aquilo não tinha remédio.