A caatinga ressuscitara, em parte. As folhas caíam, cobriam a terra de tapetes vermelhos, depois murchavam, tornavam-se pardas e sumiam. Novas folhas nasciam, pequeninas, débeis, enroladas, e abriam-se, duras, resistentes. Por baixo delas os gravetos secos alastravam-se, pretos, reduzidos, sem serventia.
Na lama seca do bebedouro, as pegadas dos animais desapareciam. Nas porteiras dos currais e nos cruzeiros das veredas, o chão gretava-se, cobria-se de fendas insaciáveis, que, adormecidas na seca, agora se escancaravam, vermelhas, indiscretas.
A fazenda renascia. E Fabiano esfregava as mãos, satisfeito. Sim senhor, a fazenda era dele. Era. Ao se apossar da casa, tivera a impressão de que ela lhe pertencia. Pensando bem, isso era um erro, mas nem sempre a gente pensa direito. Agora, ali na catinga, era possível esquecer a cidade, o patrão, o soldado amarelo, e tudo quanto há de ruim no mundo. Fabiano estirava-se no chão, os olhos azuis perdidos nos ramos da umbuzeira. Por que não podia viver escondido com a família naquele deserto?
Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. A caatinga ficaria toda verde. As águas corriam, um pé-de-turco verdejava, as várzeas se cobririam de capim. Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água e o baú de folha pintada. Os meninos cresceriam e o ajudariam na lida do campo.
Fechou os olhos para não ver a catinga amarela, e aquele bem-estar que estava sentindo cresceu. Não tinha culpa de em dias de aperto comer carne de gado alheio. Era assim com todos os vaqueiros do sertão. Demais não comia propriamente a carne; era o couro. Quando um sujeito chegava à boca do forno, não tinha outro jeito senão comer o que não lhe pertencia. E depois... Que ideia de besteira! Não era possível que um cristão matasse outro cristão por causa de um boi. A fazenda tinha tantas reses! Não fazia falta um bezerro, em tantas cabeças de gado. De certo o patrão nem dava por aquilo.
Levantou-se, agarrou o facão e dirigiu-se aos juazeiros. A novilha raposa estava comendo ramos de catingueira. Não tinha morrido, a oração e a creolina haviam-lhe curado a bicheira. Fabiano encostou-se ao tronco de um pau, abandonou o facão, acendeu o cachimbo, matou a saudade dos meninos e de Sinha Vitória.