Deu uns passos para lá e para cá. Não havia ninguém, não valia a pena fazer nada. Achou-se sem jeito, pensou em voltar para junto de Sinha Vitória e enroscar-se a um canto. Mas tinha orgulho, estava zangado.
Examinou a porteira do curral, o mourão do canto. Tudo muito grande, muito longe. Eram os mesmos objetos que ele vira de perto, com Sinha Vitória, na véspera. A diferença estava nele, naturalmente: tinha-se afastado da mãe e reduzido.
Na véspera tinham ido ali, diante da porteira do curral, e Sinha Vitória se acocorara, descansando os ossos. Em seguida se havia erguido e eles tinham caminhado alguns minutos, Sinha Vitória à frente, ele atrás, uma distância enorme separando-os. Mas na verdade estavam perto um do outro — e Sinha Vitória era enorme.
Agora ele queria crescer, desejava bruscamente ser um homem. Valia a pena? Era bom ser homem e ter um facão grande como o de Fabiano. Um facão enorme, que cortasse mandacarus, raízes e outras coisas duras.
Levantou-se e caminhou para o curral. Baleia acompanhou-o. A porteira estava fechada. Examinou-a, procurando uma passagem. Não havia nenhuma. Tentou passar por baixo, não conseguiu. Estava diante de um obstáculo que era impossível transpor. A cachorra rodeou a cerca, farejando. O menino sentou-se na soleira da porta, desanimado. Baleia também se sentou, a língua de fora, os beiços arreganhados, mostrando as presas, abanando o rabo.
Ficaram assim muito tempo. Depois, para se distrair, o menino começou a arrancar fiapos da esteira furada em que dormia. Puxou um, dois, três. Aquilo entreteve-o. Largou a esteira, levantou uma pedra miúda, atirou-a a Baleia. O animal desviou-se, ganindo, e o menino, satisfeito com o resultado, procurou mais pedras. Não achou nenhuma e tornou a mexer na esteira desfiada.
Evidentemente Baleia era maior do que ele. Desejou brigar com ela, puxar-lhe as orelhas, obrigá-la a pedir socorro num ganido. Mas a cachorra tinha dentes afiados, e ele, o menino mais novo, tinha mãozinhas fracas, boas para agarrar xícaras, mamadeiras. Baleia era grande, havia nela qualquer coisa dos adultos, uma inacessibilidade, longínqua. Tudo grande. Não conseguia furtar-se à comparação entre o seu tamanho e o das coisas.
Impressionou-se com a altura do mourão do canto do curral, achou que nunca poderia alcançar o topo daquilo. E Fabiano tinha-se trepado nele no dia anterior, as pernas separadas, olhando a catinga. Como seria possível um homem trepar num pau? Andava com as próprias pernas, sobre a terra — e de repente estava no alto de um mourão! Agora, pensando naquilo, o menino julgava Fabiano extraordinário.