O menino mais novo tinha tido um sonho ruim. Estava no chiqueiro, com o irmão e a cachorra Baleia, as cabras e os cabritos. Baleia latia, mordia-lhe as pernas, depois se levantava nas coxas dele e queria arrancar-lhe os olhos.
Acordara em pânico, com um grito sufocado na garganta, as mãos suadas apertando as pernas de Sinha Vitória. Esta afastara-o, incomodada, e ele se aninhara de novo no colo dela, tremendo, desejando, com raiva, que a manhã chegasse.
Agora marchava para o bebedouro, debaixo do juazeiro. Tinha fome, estômago e tripas reclamavam, mas tornaria a acomodar-se no colo da mãe. A manhã ainda não tinha chegado de verdade. E o menino se comprazia com a ideia de que era pequeno e precisava daquele apoio. Era pequeno, Sinha Vitória era grande.
Olhou os pés, que eram pequenos, cobertos de rachaduras e feridas. Sinha Vitória tinha nos seus pés grandes rasgaduras, ulcerações fundas, e caminhava sobre elas impassível, como se tivesse sola de couro. Que coisa admirável! Ser grande, ter pés enormes e sólidos, calçados em alpercatas resistentes, dar passos largos!
Infelizmente era pequeno e queixava-se. O irmão já se habituara à idéia de ser pequeno, mas ele não. Baleia também era pequena. Sinha Vitória e Fabiano eram grandes. E, pensando bem, o irmão e a cachorra eram maiores do que ele. Tinha vontade de crescer. Mas como não sabia explicar isso, estirou os braços para cima, para os galhos altos do juazeiro. Precisava subir, chegar àquelas folhas.
Examinou os arredores. As coisas eram extraordinárias. Um besouro de asas vermelhas voou, pousou na lama, um cascudo grande, os filhos da areia. Seria possível que os filhos da areia tivessem asas? Um dia as teria também. Faria aquilo: voaria, como o bicho e como as aves de arribação que cortavam o azul lá em cima.
Repetiu as palavras de Sinha Vitória, as exclamações que provocavam riso. Depois, cansado, deitou-se, fechou os olhos. Não queria dormir, bem sabia que em algum lugar o moleque estava crescendo. Se continuasse a dormir, iria ficar muito para trás. Mas o sono era uma coisa irresistível. Os olhos se fecharam, e um sonho mau novamente o atormentou.
Sinha Vitória cheirava mal e a boca dela estava negra, porque tinha comido mucunã torrado. Fabiano estirava-se na rede como se fosse de couro. Couro. O menino mais novo repetiu mentalmente esta palavra, procurou em vão perceber o sentido dela. Provavelmente Fabiano a tinha ouvido dizer por aí — o pai sempre vinha com expressões esquisitas, que Sinha Vitória reprovava.
Baleia estirou as pernas, adormecida. Acordou de um salto. Aquilo era um sonho, era a lembrança do pesadelo. Quis afastar aquelas visões penosas, andou, parou, e como Baleia continuasse quieta, a língua para fora, ofegante, tornou a sentar-se.