Quando Fabiano roncava, ela o chamava, e iam para a cozinha tomar café. Às vezes, nos dias de serviço leve, conversavam. Sinha Vitória falava em cama de couro. Ora, cama de couro! Não sabia por que, mas Fabiano desejava cama de lastro de couro. Seria bom ter um móvel assim, importante. Fazia figura. Dava sensação de conforto e segurança.
Sinha Vitória insistia: Seu Tomás da bolandeira tinha cama. E Sinha Vitória desejava uma cama. Seu Tomás era remediado e desabusado. A cama dele era de vara, não era de couro. Couro de boi era bruto e peludo, só servia para caboclos sem delicadeza. Ela queria era uma cama de varas. Sinha Vitória estava certa. Mas deviam possuir qualquer coisa que lembrasse Seu Tomás da bolandeira. Era um homem muito sabido. Lera livros, jornais. Levantava-se cedo, punha o chapéu de palha, ia para o curral, andava à toa, os pés para trás, procurando as suas cavalgaduras, que pastavam soltas. As esporas do cavaleiro tilintavam.
Fabiano também seria assim, se não fosse aquele negócio da cama. Tolice, naturalmente seria. Como é que um sem-vergonha, um matuto da catinga, podia ter cama decente? Era uma sorte haver naquela terra seca um patrão e uma patroa, que, coitados, tinham dó da gente.
Sinha Vitória desejou o bem-estar de Seu Tomás. Coitado. Se a seca chegasse, ele abandonaria a bolandeira, o cavalo de sela e a cama, agarrava a trouxa e caía no mundo. Ela, Sinha Vitória, seria como ele, se aquela necessidade tão simples tivesse sido satisfeita. Uma cama. Fora criada dormindo em esteiras. Os pais, que dormiam em esteira, não conseguiram fazer-lhe o mimo, não possuíam uma cama.
Agora, pensando naquilo, aperreava-se. Não queria morrer. Ainda esperava dias melhores, colheita abundante, o chiqueiro e o curral cheios. Aguentaria firme, embrulhada nos molambos. A roupa era uma miséria. E o colchão de capim? Não se lembrava de colchão. Teria sido bom possuir colchão. Sinha Vitória lembrou-se de filhos novos. Eram fracos, embora gritassem muito, talvez morressem logo. Se morressem, sofreriam menos.
Era uma sorte haver ainda algumas galinhas. As cabras estavam lá fora, pastando, os chocalhos tiniam. Muitas cabras. Deviam valer dinheiro. Se fossem vendidas, a cama seria possível. Foi isto o que Sinha Vitória gritou, dando pancadas na panela com a quenga de coco. Por que vender as cabras? Quando as levassem para a cidade, atravessassem o rio, o chiqueiro ficaria vazio. Adiantava ter chiqueiro sem cabras? Para um cristão ser feliz, havia mister ter chiqueiro e cabras, muitas cabras. E Sinha Vitória possuía cabras.
A panela chiava. Sinha Vitória remexeu-a com a quenga. Apanhou um tição, acendeu o cachimbo de barro, pôs-se a chupar o canudo cheio de sarro. Seu desejo realizava-se. E ela caía na modorra do fim do dia, um torpor que os chocalhos das cabras embalavam. Ia tudo bem. Se a seca não chegasse.