Estava ocupadíssima em cozinhar a janta. Depois lavaria os pratos, as colheres de pau, a panela de barro, poria tudo num canto da trempe, amontoado. Varria a cozinha, ia lavar-se na biqueira da telha. Depois se deitaria no chão. E não abriria mais a boca até o outro dia. Nada a distraía. Era como se o curral, o chiqueiro, os juazeiros, o menino mais novo, que não queria saber de andar no cocorote e caíra no bebedouro, escabichando-se, o menino mais velho, que se esfolara no pé de catingueira, o marido, molambo e sujo de sangue coalhado, não existissem.
Quando a panela fervesse, recuaria um pouco, sentaria na pedra que ficava perto do pote da água, desencostaria as alpercatas com uma careta, esfregaria os dedos torrados, inchados, molhados. Mas agora a panela não fervia. E Sinha Vitória soprava.
O fogo estalava. Às vezes Baleia o encarava, tomava a resolução de retirar-se, mas voltava prudentemente, receando perder alguma coisa. Não se contentava com ossos. Queria um naco de carne. E Sinha Vitória não lhe dava. Por aí imaginava que a dona era uma criatura má. Os olhos dela não tinham brilho nenhum; a boca era má, apertava-se num bico que avançava e se contraía, deixando ver os dentes. Sinha Vitória falava, e os sons que produzia eram sempre os mesmos. Nunca tinha visto uma dona assim. Felizmente havia no rancho um ser superior e bom — Fabiano, que chegaria do serviço tarde da noite, com a camisa e as calças de zuarte manchadas de sangue.
Baleia ia recebê-lo na estrada, junto ao cruzeiro. Cheirava-lhe as pernas, roçava a cabeça nelas — e Fabiano acariciava-a olhando-lhe os flancos magros, as costelas salientes. A cachorra se afastava satisfeita, correndo no escuro, e dava voltas ao redor do marido de Sinha Vitória.
Andavam assim até o jirau, onde as alpercatas de Fabiano batiam no chão, grossas e duras. Sinha Vitória, na cozinha, ouvia os rumores que vinham da sala, onde ele arrumava o gibão, a guarda-peito, as perneiras e o chapéu de couro, tirava as esporas e as guardava debaixo da rede, arrastava um dos bancos para o copiar, estirava-se nele, dobrava um braço, fazia uma travesseira.