Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.
Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida.
Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Bocejou, entorpecida, desejando comunicar às pessoas a sua satisfação.
Chegou-se a Sinha Vitória, acariciou-a com os olhos, lambeu-lhe as alpercatas de rasgaduras. Em seguida afastou-se, deu duas voltas para o lado da porta e da janela, inquieta, atravessou o copiar, entrou na sala. Voltou, inquieta, passou pela cozinha, foi açular os meninos que se divertiam no barreiro, tentou inutilmente morder a cauda. Nada disto interessava, Baleia queria mostrar-se agradecida à dona, mas não possuía meios. Sinha Vitória é que não fazia caso dela.