Voltou para casa, de má vontade, porque lá não podia desabafar. A tarde caía. As alpercatas de Fabiano batiam no chão gretado. A alma do vaqueiro povoava-se de raiva, medo, indignação. Tinha vontade de gritar, berrar desaforos contra a farda. Mas a farda estava longe, o soldado amarelo longe. E os berros de Fabiano não seriam ouvidos. Levantou os braços, tornou a baixá-los, impotente.
Diante dele a caatinga se estendia, cor de cinza. No céu dardejava o sol vermelho. Fabiano marchou para casa num crepúsculo medonho. E quando chegou ao juazeiro, perto da fazenda, viu Baleia, que o esperava, deitada entre as pedras. Levantou-se, veio correndo, lambendo-lhe as mãos.
Fabiano recebeu a carícia abanando a cabeça e olhando a catinga amarela, onde avultavam, além dos juazeiros, algumas manchas brancas de ossadas, e a sombra dos urubus. Suspirou. Que sorte! Um branco era dono da fazenda, o outro era o fiscal, o terceiro era o chefe político, todos tinham terra, animais, pistolas, chapéus de couro, pilhas de dinheiro em baús. Fabiano não tinha nada. Sim senhor, nada.
Se pudesse mudar-se, trabalhar para outro patrão, dar parte do que colhesse, sem negócio de partilha. Se pudesse um dia plantar alguma coisa... Besteira. Não sabia fazer contas, tinha de aceitar o que o patrão lhe dava. Nunca tinha podido conhecer bem o patrão. Era um homem seco, que dava ordens secas. Fabiano ouvia essas ordens, abaixava a cabeça, arreliado, e saía de costas, como um cachorro sem dono. Não podia reclamar. Se reclamasse, seria posto na rua, sem direito a nada, e teria de caminhar, levando a trouxa nas costas. E a trouxa era pesada.
Baleia saltou e correu na frente. Fabiano seguiu-a, trôpego, os pés feridos pelas rachaduras das alpercatas, torto, feio, de testa baixa. Chegou em casa, acomodou os piquás no jirau, sentou-se no chão, as costas encostadas à parede, as pernas dobradas, o chapéu de couro caindo para a nuca.
Sinha Vitória veio ter com ele, perguntou-lhe se estava doente. Fabiano grunhiu, afirmou que não tinha nada. Ficou calado, olhando as pernas de Sinha Vitória, que iam e vinham no serviço da cozinha. Sinha Vitória falou de coisas imediatas, procurou interessá-lo. Quis saber se tinha comprado mantimentos. Fabiano resmungou que tinha deixado tudo na cidade, na bodega de Seu Inácio.
— E o dinheiro?
Fabiano puxou a nota e o cobre, entregou-os à mulher, que os guardou na arca onde estava a roupa de domingo. Afastou-se, preocupada, arrumando a saia nos quadris, acocorou-se junto à trempe, entre os filhos. Fabiano não teve coragem de contar nada e continuou imóvel e calado. Aos poucos a cólera diminuiu, e Fabiano tornou-se um infeliz, cheio de pequenez.
Não podia dizer em voz alta que era infeliz e fraco. Sinha Vitória é que dizia essas coisas. Mas pensava muito nelas, principalmente agora que, por causa do soldado amarelo, se sentia mais fraco que nunca.
Baleia encostou o focinho às pernas dele, lambeu-as. Fabiano afagou-a e animou-se. Levantou a cabeça, acomodou-se na cangalha, os joelhos dobrados, as pernas esticadas ao longo das tábuas. Ia resistir. Mas o que se passava com ele era singular. Não podia contar a Sinha Vitória as coisas que lhe haviam acontecido. Nem a si mesmo podia contar direito aquilo. Sentia raiva, vexame, espanto. Estava preso à véspera porque tinha sido preso. Um absurdo.