Passou a noite num sono pesadelo, esbordoado. De manhã fizeram-no sair. A tonteira redobrou, os objetos se multiplicaram. Fabiano sentiu-se perdido no meio de tanta gente. A escuridão deu lugar a uma confusão de cores incertas, vozes zumbiam. Houve um ajuntamento, homens curiosos apalpavam-no.
— Esse é o tal.
Fabiano marchou, chegou à rua, viu os céus, as casas, as pessoas, e espantou-se. Tudo aquilo existia? Acostumara-se tanto à escuridão que a luz o cegava. Os indivíduos passavam, deixando-o para trás; as lojas, os bancos, os passeios, desapareciam; a igreja era branca, o sino tilintava; as portas entravam na parede, a rua fugia debaixo das alpercatas de Fabiano. Tudo diminuía de repente. Fabiano caminhava como se voasse.
Quase sem perceber o que fazia, entrou na bodega, tomou uma pinga, saiu. Aquilo reanimou-o ligeiramente, mas logo depois o frio da manhã, um frio úmido, enregelou-o. Endireitou o caminho da casa, debaixo dos juazeiros. Alcançou os piquás, montou, deu uma volta pelos arredores da vila, para endurecer, aproximou-se da bodega de Seu Inácio, amarrou o cavalo ao mourão, empurrou a porta de espigão.
Pediu uma garrafa de aguardente, encheu e bebeu um copo. Viu numa mesa, ao canto, perto da porta, o soldado amarelo, que dormia. A raiva de Fabiano cresceu desmedidamente. Esqueceu os ferimentos, os perigos que o ameaçavam, esqueceu tudo. Deu um passo para a mesa, ofegante. Em seguida voltou-se para Seu Inácio e declarou com voz branda:
— Vou quebrar os costados deste sem-vergonha.
Seu Inácio afastou-se depressa, sumiu-se, e Fabiano, sem prestar atenção à fuga do bodegueiro, aproximou-se do soldado que dormia.
Parou, vendo surgir na porta da rua um oficial. Bateu continência e abriu caminho, mas ficou plantado à porta do bilhar, olhando para o soldado amarelo, que ressonou, mexeu-se, acordou, e saiu da bodega, olhando Fabiano com desprezo.
Fabiano livrou-se da presença do oficial, mas a raiva persistiu. Saiu, montou, marchou para o bebedouro, onde estava o cavalo de fábrica, acocorou-se numa pedra, os pés na água, os joelhos contra o peito, a testa nas mãos.
O ódio que Fabiano sentia pela autoridade vacilou, diminuiu. Se não fosse a intervenção de Seu Inácio e o aparecimento do oficial, ela teria feito besteira. O soldado amarelo era um infeliz. Estava dormindo, não podia defender-se. E era soldado. Agredindo-o, Fabiano cometeria um crime horrível. Vexame. Mas Fabiano estava livre. Livre, solto, sem precisar de coragem. A farda amarela passava longe, e ele, no bebedouro, no meio dos bichos, podia insultar os homens que fardavam, sossegado, esquecendo a cadeia, os ferimentos, os pontapés.