Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu. Estava embriagado, era um cavalgadura, e como não tinha forças para brigar, xingaram-no a valer. Tentou explicar-se. Não acreditaram nele: — «Assobiou desrespeitando-nos, cambada de moleques, foi para a feira fazer negócio e está nas portas de cadeia.»
Fabiano caiu de joelhos, repetidamente uma lâmina de facão bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o arremessou para as trevas do cárcere. A chave tilintou na fechadura. Fabiano ergueu-se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto. Aos poucos os objetos se tornaram brancos e foram clareando.
Encolhido num ângulo da prisão, Fabiano pôs-se a repisar a viagem e a chegada à feira, viu-se em cima do cavalo de fábrica, as perneiras apertando-lhe as coxas, a guiada puxada para trás, o chapéu de couro caído sobre a nuca, os cascos do animal espalhando poeira na estrada. Lembrava a visita às lojas, a indecisão, o regateio, as contas feitas a lápis, na palma da mão, a rua cheia de gente. Tudo errado.
Estava preso, e sem saber por quê. Aparentemente, havia cometido uma falta grave, mas o que era? Procurou recordar as leis que aprendera na infância, com o pai. Nada. Não sabia. Preso como um cachorro. E não percebendo a razão, sentia-se atordoado. Como é que tinha chegado àquele estado? Procurou recordar-se das circunstâncias. Não conseguiu.
Imaginação! Os seus negócios tinham ido mal, e por causa disto a autoridade o pegara. Se os negócios corressem bem, ele seria respeitado. Como sempre acontecia. Seu Inácio botara água no querosene e na cachaça, não fora preso. Os caixeiros da rua roubavam na medida e no preço, ninguém os levava à cadeia. Muito bem. Mas Fabiano era um pobre diabo, e por isso é que tinha sido preso.
A cólera de Fabiano aumentou. Vacilou, e numa oscilação lembrou-se de Sinha Vitória, dos meninos. Juntou as mãos, rezou. Estava com medo. Não conhecia a lei. Imaginou que um dia, de repente, o governo ia enforcar nele na cadeia, sem mais aquela. Tremeu.