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A réstia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo — e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas. O relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vinham de fora as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante o dia. E o dia estava dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede. Depois a escuridão cheia de pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios, boiava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava à superfície, tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, dos braços da treva que me queriam agarrar. O som de uma vitrola coava-se nos meus ouvidos, acariciava-me, e eu diminuía, embalado nos lençóis, que se transformavam numa rede. Minha mãe me embalava cantando aquela cantiga sem palavras. A cantiga morria e se avivava. Uma criancinha dormindo um sono curto, cheio de estremecimentos. Em alguns minutos a criança crescia, ganhava cabelos brancos e rugas. Não era minha mãe a cantar: era uma vitrola distante, tão distante que eu tinha a ilusão de que sobre o disco passeavam pernas de aranha. Um disco a rodar sem interrupção a noite inteira. Não. Estávamos na segunda parede, e eu subia a parede, acompanhava a réstia como uma lagartixa. Marasmo de muitas horas, solução de continuidade que se ia repetir. Cairia da parede, como uma lagartixa desprecatada, ficaria no chão, moído da queda. Quem teria entrado no quarto durante a inconsciência prolongada? Moisés e Pimentel teriam vindo? Seu Ivo teria vindo? Lembrava-me de figuras curvadas sobre a cama. Não eram os meus amigos. Eram tipos de caras esquisitas, todos iguais, de bocas negras, línguas enormes, grossas e escuras. Quantos dias ali no colchão áspero, como um defunto? Um homem sem rosto, sentado na cadeira onde tinha ficado o paletó, falava muito. Que dizia ele? Esforçava-me por entendê-lo, mas tinha a impressão que o visitante usava língua estrangeira. Era como se me achasse num cinema. Apenas compreendia de longe em longe algumas palavras. Cansava-me e desejava que o homem se fosse embora. Não percebia que me importunava, que me obrigava a esforços enormes para entender uma língua estranha? O desconhecido continuava a falar. Eu subia a parede novamente e corria atrás da réstia. Cairia no tijolo outra vez, achatar-me-ia ouvindo o monólogo incompreensível. Receava que o homem sem rosto me julgasse estúpido. Queria dormir, arregalava os olhos e abria os ouvidos. Certamente dizia coisas sem nexo, e o desconhecido me chamava imbecil, com palavras inglesas. Um buraco ao pé de uma cerca. Eu tombava no buraco, ia descendo lentamente. E, enquanto descia, encontrava no caminho muitas flores que desciam também, sem peso, como flocos de algodão. Subia, era como se o meu corpo se transformasse em nevoeiro. Tornava a descer, tornava a subir, as flores caíam sempre numa chuva silenciosa. As flores não me davam nenhum prazer. Desejava livrar-me delas, interromper aquelas viagens para cima e para baixo, andar na terra. Escancarava os olhos. O homem sem rosto havia desaparecido, e eu tinha agora um livro aberto sobre o colchão. Não sabia quem me trouxera o livro, se ele surgira antes ou depois da visita. As letras saíam dos lugares, deixavam espaços em branco, espalhavam-se numa chuva silenciosa. Apertando as pálpebras, esfregando-as, aproximando e afastando o papel, conseguia conter a dispersão. Impossível adivinhar o sentido de uma palavra. Língua estrangeira, tão estrangeira como o solilóquio monótono. Sem memória, um idiota. Chorava, batia com a cabeça no ferro da cama, puxava os cabelos. Olhava as mãos. As unhas crescidas e sujas, a escoriação da palma secando e cicatrizando, os dedos compridos, escuros, com uns nós muito grossos. Sem memória. Que teria acontecido antes? A confusão se dissipava, a réstia avançava no tijolo, trepava na cadeira onde o homem se tinha sentado, ganhava o paletó estendido no encosto. O paletó me espiava com um olho amarelo que mudava de lugar. A calça continuava dobrada sobre a mala coberta de poeira. A sentinela cochilava no portão do palácio, encostada ao fuzil; André Laerte andava como um gato; Amaro vaqueiro, aboiando, laçava a novilha careta; cabo José da Luz caminhava para a cadeia pública, todo pachola; Dagoberto punha na minha cama a cesta de ossos e o compêndio de anatomia. Eu pegava o livro que estava aberto em cima do colchão. Tinham deixado ali aquele volume inútil. Lia-o pensando em ossos. Provavelmente fora Moisés que o trouxera para me distrair. As palavras iam-se tornando claras, mas não se reuniam. Bom camarada, Moisés. Dera-me um livro para me distrair. A réstia descia a cadeira, atravessava os tijolos e ganhava a parede. O cego dos bilhetes de loteria apregoava o número, batendo com o cajado no chão do café; a mulher da rua da Lama cruzava os dedos magros nos joelhos; Lobisomem parecia um velho decrépito. Essas figuras vinham sem nitidez, confundiam-se. Antônia arrastava os chinelos, mostrava as pernas cobertas de marcas de feridas e cantava uma cantiga vagabunda. Mas a cantiga se transformava: “Assentei praça. Na polícia eu vivo…”. E Antônia era o cabo José da Luz. Em pé, defronte da prensa de farinha, oferecia-me uma xícara de café. Antônia, cabo José da Luz, Rosenda — uma pessoa só. Às vezes apareciam três corpos juntos com rostos iguais, outras vezes era um corpo com três cabeças. Afinal surgia um vivente que tinha três nomes. Agarrava-me ao livro, compreendia vagamente o que estava escrito, mas ficava-me a certeza de que havia ali vários trabalhos, feitos por muitos indivíduos. Chineses. Uns chineses brigões, revoltados. Lembrava­-me dos chineses que lavam roupa, fabricam ventarolas, vendem bagatelas, juntam-se às caboclas. Muitos livros arrumados, formando um livro incompreensível. Fernando Inguitai andava pela rua do Comércio, o braço carregado de voltas de contas, o cigarro babado no beiço que se arregaçava, descobrindo os dentes enormes num sorriso parado. O som da vitrola ia quase desaparecendo, a lagartixa subia a parede. Amaro vaqueiro, agitando o laço, mastigava o cigarro de palha e mostrava os dentes pretos num sorriso parado. A cadeira suja de poeira, a mala suja de poeira. A roupa havia desaparecido. Seria bom levantar-me, procurar qualquer coisa para me vestir. Pouco tempo antes a roupa estava ali, no encosto da cadeira e em cima da mala. De repente um sumiço. Quem me tinha dito aquele nome estranho? Fernando Inguitai, a lagartixa, a réstia, Amaro vaqueiro. A vitrola cantava baixinho: “Fernando Inguitai”. Tentava sentar-me. Se isto me fosse possível, procuraria a roupa. Virava-me com dificuldade. Por que não entrava logo a pessoa que estava na sala? “Obrigado, Vitória. Não quero comer. Traga um copo de água.” Vitória afastava-se arrastando os pés, levando a bandeja com a comida que me dava engulhos. Minutos depois, lá vinha, chape, chape, resmungando, a cara fechada, e entregava-me o copo. Eu bebia, molhando as cobertas. “Obrigado, Rosenda.” Ficava suando e arquejando, a vista escurecia, estirava-me na prensa de farinha, junto ao muro. O barulho do descaroçador de algodão não me deixava dormir, os passos de Vitória morriam no corredor. Meu pai estava deitado, muito comprido, envolto num pano que se dobrava entre as pernas e tinha no lugar da cara uma nódoa vermelha cheia de moscas. As moscas não se mexiam, mas faziam um zumbido horrível de carapanãs. O olho de vidro de padre Inácio estava parado, suspenso no ar, fora do corpo. A batina de padre Inácio, o capote do velho Acrísio, a farda de cabo José da Luz e o vestido vermelho de Rosenda estavam parados, suspensos no ar, sem corpos. As carapanãs zumbiam. Os pés de Camilo Pereira da Silva, escuros, ossudos, saíam por uma das pontas do marquesão, medonhos. Eu atravessava o corredor, ia à sala, voltava a deitar-me na prensa, abria o livro que tinha chineses revoltados. Mas as pálpebras cerravam-se, as carapanãs e o descaroçador enchiam-me a cabeça. Que motivo tinha Fernando Inguitai para rir-se? Empurrava os travesseiros e tentava abrir os olhos. Se pudesse levantar-me, tudo aquilo desapareceria. Iria conversar com o homem que me esperava na sala. “Não há chinês chamado Fernando.” Onde tinha ouvido aquele nome de Inguitai? Se Vitória me trouxesse um copo de água… Ali com sede, morrendo, sem um diabo que me desse uma xícara de café, um copo de água! Embalava-me com isto: “Sozinho, sozinho, morrendo à míngua, com sede”. Era bom que todos estivessem longe. O contínuo da repartição, tão magro, tão velho, tão triste, movia-se trôpego. D. Adélia dançara como carrapeta, e agora era aquilo que se via, mole, acabada, uma lástima. Albertina de tal, parteira diplomada. Quando eu entrava na repartição, apressado e fora da hora, o contínuo velho tinha um sorriso doce e alguma informação útil. Os meus olhos abriam-se, fechavam-se, tornavam a abrir-se. Os caibros engrossavam, torciam-se, alvacentos e repugnantes como cobras descascadas. “Greve no caso de reação.” Alguns letreiros estavam raspados, outros desapareciam sob as manchas que as águas da chuva tinham produzido. Mas havia letreiros novos. As crianças das escolas olhavam para eles. O homem cabeludo que vendia aguardente só cuidava da sua vida. Albertina de tal, parteira diplomada. Onde estava a minha roupa? Queria vestir-me, sair pela rua, ler os jornais. Que diziam os jornais? Subir o morro do Farol, entrar nas bodegas, beber cachaça. Seu Ivo me visitara, acocorara-se junto à parede. “Leve a roupa, seu Ivo.” Seu Ivo tinha vestido a calça rasgada e o paletó sujo. Talvez não tivesse vestido aquela imundície, talvez fosse tudo um sonho. Um homem na sala esperava com paciência que me restabelecesse. Sair, entrar no café, viajar nos bondes. Onde estava a minha roupa? A cadeira perto da cama, o livro fechado sobre a palha. “Leve isso daí, seu Ivo. A calça está rasgada. Cosa o rasgão com uma corda.” Albertina de tal, parteira diplomada. Escuridão. Um estremecimento, uma queda. Ia cair da cama, o chão se abriria, eu rolaria pelos séculos dos séculos fora disto. O espírito de Deus boiava sobre as águas. Livrava-me do susto, pouco a pouco ia resvalando no entorpecimento. Os caibros faziam voltas, as telhas se equilibravam por milagre. Algumas dobras daquelas coisas brancas e moles desciam, aproximavam-se da minha boca, davam-me náuseas. A vitrola dizia: “Fernando Inguitai”. Os reisados cantavam defronte da casa de seu Batista. Os mateus gritavam: “Abra a porta, ioiô”. E as figuras todas: “Aqui estou na vossa porta como um feixinho de lenha”. Seu Batista não abria: esperava a cantiga que fazia as janelas se escancararem. E as figuras, o embaixador, o rei, a burrinha, os mateus, ficavam na calçada como um feixinho de lenha, fedendo a suor, gemendo os versos, até que seu Batista, importante, abria a sala, surgia vistoso, baixinho, vestido em robe de chambre. O feixinho de lenha entrava e cantava, seu Batista recolhia os capacetes dos mateus, a coroa do rei, a espada do embaixador, os lenços das figuras, punha uns níqueis em tudo isso. O zumbido das carapanãs era insuportável. “Um copo de água, Vitória.” Vitória não ouvia, e a leseira recomeçava. Não havia escuridão, a réstia subia a parede. “Leve a roupa, seu Ivo.” Seu Ivo se acocorara a um canto, silencioso, babando-se. Pimentel não aparecia. Devia ter aparecido, mas não me lembrava dele. Com certeza viera num momento em que a febre era muito forte. Que doidices teria eu dito na presença de Pimentel? Um, dois, um, dois. Marchava — e não podia levantar-me da cama. Quatro paredes. As quatro paredes da repartição esmagavam-me. Algumas horas depois da função, o feixinho de lenha, composto de mateus, figuras, burrinha, rei, embaixador, suaria arrastando a enxada no eito. “Parem essa vitrola.” Fernando Inguitai, o braço carregado de voltas de contas, andava pela rua do Comércio, fumando, sorrindo. Haveria alguém neste mundo que se chamasse Inguitai? As cascavéis e as jararacas tomavam banho com a gente no poço da Pedra. Uma delas se enroscara no pescoço de meu avô. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva sapateava no chão de terra batida, uma alpercata saltava-lhe do pé. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Ria-me como um idiota. Provavelmente havia institutos históricos e geográficos por esses lugares. Certas pessoas empurravam outras nas escadas e diziam: “Desculpe”. O cego dos bilhetes de loteria cantava o número, batendo com o cajado no cimento do café. Virava-me para o espelho. Por detrás das letras brancas, rostos medonhos arreganhavam os dentes e piscavam os olhos. As letras torciam-se, os caibros torciam-se, baixavam, brancos, moles, como cobras descascadas. 384. O cajado batendo no cimento, avançando para mim, ameaçando-me com uma tira de papel, que engrossava e queria morder-me. Moisés aproximava-se, comprava a tira de papel, que se enrolava nos dedos dele, e lia em voz alta uma infinidade de vezes: “384”. Eu ia fugir, mas Fernando Inguitai estava na calçada, esperando-me para vender uma volta de contas. “Vai-te embora, Moisés.” Não queria voltas de contas nem queria ouvir a leitura daquele número. Não era número: eram palavras incompreensíveis, histórias da China. Moisés virava a página, que ficava mexendo-se. A cadeira mexia-se. Afastava-me, com medo da cadeira. No dia seguinte, quando viesse varrer o quarto, Vitória a poria no lugar de costume, junto à mala, mas durante uma noite inteira o móvel caprichoso não me deixaria descansar. Eu tremia e receava que Moisés se fosse embora. Voltaria o silêncio, a cadeira se chegaria mais à cama. “Continue, Moisés. É isso mesmo.” Não o entendia, mas aprovava-o com a cabeça e com palavras assim. A voz rolava, lenta e monótona, o dedo comprido virava a página e gesticulava diante da minha cara. Passavam chineses armados. E o dedo enrolava-se, dava um nó. A leitura era um zumbido, um enxame de carapanãs lia o livro difícil. Estava a balançar-se numa rede, ia acima e vinha abaixo. E quando subia, abria os olhos, via o dedo perto das minhas ventas; quando descia, ouvia o arranhar da vitrola. Os ratos do armário dos livros roíam o disco da vitrola, e a vitrola dizia baixinho: “Fernando Inguitai”. A réstia sumia-se. Moisés levantava-se, puxava a correntinha da lâmpada, tornava a sentar-se. “Obrigado, Moisés.” Ali perdendo tempo, lendo para me distrair. Excelente camarada. “É preciso que dr. Gouveia mande limpar estas paredes.” Caía em mim, arrependia-me de ter falado. Certamente as paredes necessitavam limpeza, zangar-me-ia se alguém me dissesse que não, mas a necessidade exigia explicação, e não me poderia fazer compreender. Ao mesmo tempo temia que o judeu mangasse de mim por eu haver interrompido a leitura com uma frase besta. Íamos discutir. Receava encolerizar-me e ser grosseiro com um visitante. Se ele concordasse comigo, seria por eu estar doente. Não me conformava com isto. Preciso da condescendência dos outros? Sou alguma criança? Por que tinha ele suspendido a leitura e esbugalhava para mim aqueles olhos de mal-assombrado? Seria melhor destampar logo e declarar francamente que as paredes não necessitavam limpeza. De qualquer modo seria fácil um rompimento entre nós. Cada qual para o seu lado, cada qual com as suas ideias. Moisés levantava-se, despedia-se. Eu escondia as mãos nas cobertas, enrolava o pano debaixo do queixo e tremia, pedia-lhe com os olhos que não me deixasse só entre aquelas paredes horríveis. Agora Moisés me havia abandonado, e eu batia os dentes como um caititu. As paredes cobriam-se de letreiros incendiários, de lágrimas pretas de piche. As letras moviam-se, deixavam espaços que eram preenchidos. Estava ali um tipógrafo emendando composição. E o piche corria, derramava-se no tijolo. Ameaças de greves, pedaços da Internacional. Um, dois… Impossível contar as legendas subversivas. Havia umas enormes, que iam de um ao outro lado do quarto; umas pequeninas, que se torciam como cobras, arregalavam os olhinhos de cobras, mostravam a língua e chocalhavam a cauda. As letras tinham cara de gente e arregaçavam os beiços com ferocidade. A mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas agitavam-se na parede como borboletas espetadas e formavam letreiros com outras pessoas que lavavam garrafas, enchiam dornas e faziam coisas diferentes. A datilógrafa dos olhos agateados tossia, as filhas de Lobisomem encolhiam-se por detrás das outras letras, Antônia arrastava as pernas grossas cobertas de marcas de feridas, a mulher da rua da Lama cruzava as mãos sobre o joelho magro e curvava-se para esconder as pelancas da barriga escura. Um choro longo subia e descia: “Que será de mim? Valha-me Nossa Senhora”. Um moleque morria devagar, mutilado, porque havia arrancado os tampos da filha do patrão. Fazia um gorgolejo medonho e vertia piche das chagas. 384. O cego dos bilhetes batia com o cajado na parede. “Afastem esta cadeira.” Seu Ivo estava de cócoras, misturado às outras letras. A calça rasgada e o paletó sujo eram cor de piche. Cirilo de Engrácia, carregado de cartucheiras e punhais, encostava-se a uma árvore, amarrado, os cabelos cobrindo o rosto, os pés com os dedos para baixo. A sentinela cochilava no portão do palácio. Um ventre enorme crescia na parede, uma criatura malvestida passava arrastando a filha pequena, um brilho de ódio no olho único. Sinha Terta gemia: “Minha santa Margarida…”. O dono da bodega, triste, fincava os cotovelos no balcão engordurado. As crianças faziam voltas em redor da barca de terra e varas. A rapariga pintada de vermelho espalhava um cheiro esquisito. O engraxate escutava histórias de capoeiras. O homem acaboclado cruzava os braços, mostrando bíceps enormes. O mendigo estirava a perna entrapada e ensanguentada. As moscas dormiam, e o mendigo, com a muleta esquecida, bebia cachaça e ria. Passos na calçada. Quem ia entrar? Quem tinha negócio comigo àquela hora? Necessário Vitória fechar as portas e despedir o hóspede incômodo que não se arredava da sala. Mas Vitória contava moedas, na parede, resmungava a entrada e a saída dos navios. A placa azul de d. Albertina escondia-se a um canto, suja de piche. Todo aquele pessoal entendia-se perfeitamente. O homem cabeludo que só cuidava da sua vida, a mulher que trazia uma garrafa pendurada ao dedo por um cordão, Rosenda, cabo José da Luz, Amaro vaqueiro, as figuras do reisado, um vagabundo que dormia nos bancos dos jardins, outro vagabundo que dormia debaixo das árvores, tudo estava na parede, fazendo um zumbido de carapanãs, um burburinho que ia crescendo e se transformava em grande clamor. José Baía acenava-me de longe, sorrindo, mostrando as gengivas banguelas e agitando os cabelos brancos. “José Baía, meu irmão, estás também aí?” José Baía, trôpego, rompia a marcha. Um, dois, um, dois… A multidão que fervilhava na parede acompanhava José Baía e vinha deitar-se na minha cama. Quitéria, sinha Terta, o cego dos bilhetes, o contínuo da repartição, os cangaceiros e os vagabundos, vinham deitar-se na minha cama. Cirilo de Engrácia, esticado, amarrado, marchando nas pontas dos pés mortos que não tocavam o chão, vinha deitar-se na minha cama. Fernando Inguitai, com o braço carregado de voltas de contas, vinha deitar-se na minha cama. As riscas de piche cruzavam-se, formavam grades. “José Baía, meu irmão, há que tempo!” As crianças corriam em torno da barca. “José Baía, meu irmão, estamos tão velhos!” Acomodavam-se todos. 384. Um colchão de paina. Milhares de figurinhas insignificantes. Eu era uma figurinha insignificante e mexia-me com cuidado para não molestar as outras. 384. Íamos descansar. Um colchão de paina.