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“Ó Vitória, faça o favor de ir ali à esquina, ouviu? Telefone à repartição, diga que não vou ao serviço hoje. Estou doente.”

Quando ela saiu, deitei no saco a roupa branca que tinha vestido na véspera. Em seguida escondi o paletó e a calça rasgada debaixo do colchão.

Se dessem busca na casa? Fui remexer o saco, ver se na roupa branca havia sinais que me pudessem comprometer. O paletó e a calça não estavam bem escondidos. Pensei em queimá-los, enterrá-los. Levantei o colchão, tirei-os. Sujos de lama. Não podiam ficar ali. Se fossem descobertos? Atirei-os para trás da mala, apanhei do chão a gravata e fui para a sala de jantar.

“Telefonou, Vitória?”

“Telefonei.”

“Muito obrigado. É que estou com febre, morrinhento. Que há de novo?”

“Um senador que chegou do Rio.”

“Está bem.”

Bebi uma xícara de café, procurei uma tesourinha e pus-me a cortar as unhas, que ainda tinham terra. Estava com febre e aturdido pela cachaça.

“Ó Vitória, se não estiver muito ocupada, leve a roupa à lavadeira, ouviu? Preciso camisas.”

Vitória afastou-se e daí a pouco saiu com uma trouxa de roupa suja. A porta da frente abriu-se e fechou-se. Acabei de cortar as unhas arroxeadas. As mãos engrossavam e deformavam-se, a direita com uma esfoladura na palma, a esquerda cheia de fibras de madeira, que extraí com a ponta da tesoura. A gravata estava enrolada, como uma corda, exatamente igual a todas as gravatas que tenho tido, mas senti a necessidade de destruí-la. Cortei-a em pedacinhos, que desfiei, juntando os fios em cima da coxa. Vitória, arrastando os pés, ficaria muito tempo na rua. Dediquei-me nervosamente a desfiar os pedaços da gravata. Tossia e limpava os olhos, que lacrimejavam. Uma felicidade estar com febre. Os rumores externos eram os mesmos de todos os dias. D. Rosália despropositava com Antônia, d. Adélia cantava no banheiro, o trem passava apitando, automóveis e bondes rolavam longe. Desejei ver seu Ivo, pensei em oferecer qualquer coisa a seu Ivo. Isto me aliviaria. As alfaces no canteiro amarelavam. O homem triste enchia dornas. A mulher magra agitava garrafas e sacolejava-se como se tocasse ganzá. Nenhuma novidade. Moisés e Pimentel me seriam desagradáveis naquele momento, mas a companhia de seu Ivo me daria prazer. Subitamente imaginei que o homem triste e a mulher magra me espionavam. Afastei a cadeira para não ver o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas, continuei a tarefa. Quando a terminasse, ficaria tranquilo. Cortaria depois a calça e o paletó em pedacinhos que seriam desfiados. Ficaria inteiramente tranquilo. Nenhuma novidade. Apenas a viagem de um senador desconhecido. Tranquilo. Deitar-me-ia, descansaria. De minuto a minuto suspendia o trabalho para enxugar os olhos, e a umidade que havia no lenço era quente demais. Respirava com dificuldade, o corpo se derreava na cadeira, bocejos enormes. Compreendia que o exercício a que me entregava era inútil, perigoso talvez. Se alguém entrasse de repente e me visse desfiando pedaços de pano? Mas continuava a desfiá-los à pressa, e escondia o molho de fios entre as pernas. Vitória não chegava. Com certeza a comida ia esturrar. Que esturrasse. Podre de rica, Vitória: prata, libras esterlinas. Tentei pensar nas moedas. Impossível. Não acabaria a destruição da gravata? Sentia um medo horrível e ao mesmo tempo desejava que um grito me anunciasse qualquer acontecimento extraordinário. Aquele silêncio, aqueles rumores comuns, espantavam-me. Seria tudo ilusão? Findei a tarefa, ergui-me, desci os degraus e fui espalhar no quintal os fios da gravata. Seria tudo ilusão? Voltei, atravessei o corredor, cheguei à sala, olhei a rua pelas tabuinhas da rótula. Uma das filhas de Lobisomem mostrou a cabeça arrepiada. Antônia passou com o filho mais novo de d. Rosália pela mão, uma bicicleta rodou no paralelepípedo. Enxuguei os olhos. A cabeça doía-me. Encostei os cotovelos à janela. Entre duas tabuinhas afastadas distinguia a cara amarela, os olhos abotoados e os cabelos ruivos da filha de Lobisomem. Pelas outras tabuinhas só percebia os pés dos transeuntes. Iam e vinham, ocupados. Todos os dias acontecem desgraças. Estava doente, ia piorar, e isto me alegrava. Deitar-me, dormir, o pensamento embaralhar-se longe daquelas porcarias. Senti uma sede horrível. Os beiços secos, queimados, rachavam-se. Evidentemente a sede tinha horas, mas só então me apareceu clara a necessidade de beber água. Quis ver-me ao espelho. Tive preguiça, fiquei pregado à janela, olhando as pernas dos transeuntes. Esfreguei a cara com a mão estragada. Os pelos duros feriram-me a palma em carne viva.

“Todos os dias nasce gente, morre gente. Isso não tem importância.”

Repetia frases assim e soprava a palma ferida, mas não prestava atenção ao que dizia, pensava em coisas diferentes, em muitas coisas que se misturavam. Ia haver uma escuridão, uma desordem. Parecia-me que os acontecimentos subiam e desciam numa panela, fervendo.

“Em segurança.”

Com os cotovelos presos à janela, olhava a rua e tremia. Morto de sede, não me aventurava a tirar-me dali. As pernas fraquejavam, bambas. As que andavam na rua atravessavam o minguado espaço que a minha vista alcançava, eram bem-vestidas, rotas, nuas — e isto me bastava para adivinhar as caras. Iam lentas ou apressadas, ignoravam a existência de outras que giravam, encostando as pontas dos pés no chão coberto de folhas secas. Duas pernas pararam no meio da rua, voltaram as biqueiras dos sapatos para o meu lado. Olhos atentos, sob a mão em pala na testa, deviam estar observando o número da casa. Isso durou um minuto. As biqueiras avançaram em direção a mim. Descobriram-se os joelhos das calças ordinárias e surradas. Provavelmente era um investigador, um desses homens que frequentam os cafés, escutam conversas e fogem como sombras, olhando por baixo da aba do chapéu embicado. Ia aproximar-se macio, bater palmas discretamente para não atrair a atenção dos vizinhos:

“Ó de casa!”

Eu me afastaria da janela, arrastando as pernas que pesavam arrobas, iria abrir a porta. Perguntas sem pé nem cabeça, uma busca na casa; a roupa machucada e rasgada atrás da mala, as minhas mãos feridas, as unhas roxas, provocando suspeitas que se acumulavam e viravam certeza. Eu me atrapalharia logo e diria o que o sujeito quisesse. Não seria preciso me darem água de bacalhau. A garganta ardia-me, passei a língua seca nos beiços gretados. Água de bacalhau, dias de fome, noites em claro, um tipo martelando horas a fio:

“É bom o senhor contar. Para que esconder? Tudo se descobre. Confesse.”

Eu arriaria a trouxa com facilidade. Tudo se descobre, sem dúvida. Que papéis haveria nos bolsos da roupa que estava atrás da mala? Bilhetes de dr. Gouveia, correspondência do interior, a carteira vazia, artigos manuscritos, recortes de jornais. Se algum desses papéis tivesse caído na estrada? Perdido, trinta anos de cadeia, a imundície; os trabalhos dos encarcerados: fabricação de pentes, esteiras, objetos miúdos de tartaruga. Faria um livro na prisão. Amarelo, papudo, faria um grande livro, que seria traduzido e circularia em muitos países. Escrevê-lo-ia a lápis, em papel de embrulho, nas margens de jornais velhos. O carcereiro me pediria umas explicações. Eu responderia: “Isto é assim e assado”. Teria consideração, deixar-me-iam escrever o livro. Dormiria numa rede e viveria afastado dos outros presos. A garganta doía-me, os beiços colavam-se. Precisava beber água e pensava no caldo de bacalhau. Confessaria tudo, mostraria a roupa rasgada, os bilhetes, as cartas, os artigos. Os olhos pestanejavam e choravam lágrimas quentes que eu enxugava na manga. Não podia ver bem a rua. As pernas teriam marchado para mim ou estacionariam no paralelepípedo, indecisas? Tanto tempo a ameaçar-me com as biqueiras dos sapatos cambados e as joelheiras das calças ordinárias! As biqueiras volveram à esquerda e sumiram-se. Não era gente da polícia: seria talvez um servente de casa comercial, carregado de embrulhos, distribuindo mercadorias. Provavelmente conduzia troços para d. Mercedes e estava em pé na calçada, batendo palmas. D. Mercedes vinha devagar, cheirosa, o penhoar exibindo o peito maduro. Recebia os pacotes, dava uns níqueis ao carregador, entrava, ia desatar os cordões e examinar as compras. Entre as duas tabuinhas mais afastadas da rótula vi de novo o rosto espantado da filha de Lobisomem. Por que se espantava? Não havia motivo. Tudo em ordem na rua. A barriga e as pernas de um homem passaram na calçada e pararam à porta de d. Rosália. Alguns rapazes dirigiam-se ao colégio Diocesano. Um moleque de tabuleiro deu um grito estridente que me assustou. Evidentemente… A rua sossegada, como nos outros dias. O grito do moleque continuava a furar-me os ouvidos. Evidentemente… Que é que ia dizer? O pensamento partia-se. Ia cair de cama, delirar, morrer. A carne estremecia, os pés dos cabelos doíam-me. De quando em quando levava a mão ao rosto, e o contato da palma com a barba crescida arrancava­-me palavrões obscenos grunhidos em voz baixa. Um porco, parecia um porco. Esta comparação não me entristecia. Desejava ser como os bichos e afastar-me dos outros homens. As mãos doíam-me, as pernas doíam-me, os pés dos cabelos doíam-me. Não queria imaginar o que aconteceria lá fora, o que tinha acontecido. Fatos possíveis misturavam-se a coisas absurdas. Evidentemente… Esta palavra solta, repetida, enfurecia-me. Pouco a pouco serenava. Seu Ramalho, no meio das conversas, dizia: “Eu lhe conto”. E não contava nada. D. Adélia censurava a filha com um gemido: “Hum! hum!”. Antônia dava uma risadinha ruim e piscava um olho: “Safada moda”. Agora a rua estava em silêncio. Noutra rua havia lágrimas, desespero e cabelos arrancados. Um médico vestia o avental, chegava-se ao mármore do necrotério. O homem dos caixões de defuntos preparava coroas de flores roxas, muitas coroas de flores roxas com fitas roxas. Onde andaria Vitória? Surda, a cabeça cheia de moedas e navios, arrastando-se pelas bodegas. Uma senhora gorda e mole, com os sovacos molhados, chorava noutra rua. Fui ao quarto, levantei a roupa caída atrás da mala, estendi-a em cima da cama, examinei o joelho rasgado, as bainhas puídas, a gola embranquecida. Machucada, suja de poeira, lama seca e teias de aranha. Cortá-la-ia em pedacinhos, que seriam desfiados e atirados ao monturo. Procurei uma escova e pus-me a limpar os trapos. De momento a momento suspendia o trabalho e soprava a mão ferida. Estupidez deixar aquilo no chão, entre a mala e a parede. Bem. Agora os panos estavam quase decentes. Algumas pancadas na porta gelaram-me o sangue. Caí sentado na cama. Tudo perdido. Lá estava o sujeito da polícia com o chapéu embicado. Olhei o rasgão do joelho, as mãos grossas. Difícil dobrar os dedos. E nas costas da mão direita, a mais estragada, corria um traço largo que escurecia. Ao amanhecer estava vermelho, mas agora ia ficando azulado. Enfim tudo perdido. Era sair, entregar-me, contar a história botando os pontos nos ii. Faria um livro na prisão, estudaria, arranjaria camaradagem com dois ou três presos mansos. Habituar-me-ia. A gente se habitua em toda parte. Dorme à beira das estradas, nos bancos dos jardins. Depois de meia-noite as letras miúdas dançavam na prova molhada, a saleta da revisão enchia-se de fantasmas, a gente lia cochilando, emendava cochilando. Um galego dava ordens aos berros. Nas mesinhas estreitas, forradas com papel de impressão, as vozes esmoreciam, as canetas sujas, nojentas, calavam-se. Vida porca, safada. Agora estava menos porca e mais safada. Adulações, medo de perder o emprego, de voltar às estradas, à caserna, aos bancos dos jardins, à mesa da revisão. O suor molhava-me o pescoço, a vista escurecia, a memória dava saltos, a respiração encurtava-se. Uma lembrança vaga de cavalos perseguia-me. Onde teria eu visto aqueles cavalos? Nunca fui cavaleiro, nunca montei direito. Uma queda nas pedras do Ipanema ia-me desmantelando. Era estranho que aqueles animais viessem perturbar-me. Fazia um minuto que o homem da polícia tinha batido. Sentado na cama, suando, tossindo, as mãos esfoladas, encolhia-me. Os animais aperreavam-me. A princípio não conseguira distingui-los. Era um tropel distante, rumor que se confundia com a cantiga dos sapos do açude da Penha e o zumbido das carapanãs. Agora percebia que eram cavalos correndo. Novas pancadas. Levantei-me, cheguei à porta do quarto, estirei a cabeça. Um maloqueiro, um vagabundo que pedia esmola. Enfureci-me e gritei:

“Puta que o pariu.”

Estar, um homem em casa, sossegado, escovando a roupa, e de repente pancadas, amolações, peditórios.

“Isso tem cabimento? Dá o fora, vai para o diabo.”

Pus o paletó no encosto de uma cadeira, dobrei a calça, ocultando a parte rasgada, e coloquei-a em cima da mala.

“Onde vamos parar com tantos mendigos? Isso tem jeito?”

O quarto estava como nos outros dias. O meu desejo era deitar-me, mas fui à sala de jantar, ainda bastante zangado:

“Canalhas, preguiçosos.”

Derreei-me na cadeira, um peso enorme nos braços:

“Safados.”

Não me referia apenas aos maloqueiros. De quando em quando passava a manga do pijama nos olhos molhados. E soprava a palma ferida, mas o ar saía quente e a dor não diminuía. Esse movimento de soprar a mão quase encostando-a à boca fez-me pensar nos gatos. Ia adormecer, perder a consciência. As coisas afastavam-se ou aproximavam-se de maneira absurda, as paredes moviam-se. Não ter consciência. Soprava a mão. Ser como um gato que lambe os pés.

Que direito tinha aquele bandido de me vir incomodar quando eu estava ocupado, escovando a roupa? Então não pode um homem pôr em ordem os seus troços sem ser perturbado?

“Isto é casa de puta para qualquer um bater e entrar?”

Por que era que o vagabundo me havia enganado fazendo-se passar por gente da polícia? Dentro em pouco outras pancadas me esfriariam o sangue, num segundo rolariam multidões de pavores. Tudo se repetiria — as mesmas caras, as mesmas perguntas, as mesmas ameaças, o julgamento, discursos, a escuridão entre quatro paredes, portas de ferro, fechaduras enormes, ferrolhos enormes. Levantar-me-ia, atravessaria o corredor como se me arrastassem. Outro vagabundo, um vendedor ambulante, qualquer pessoa levada por endereço errado:

“Não é aqui não. Desculpe.”

Voltaria para junto da mesa, aguardaria novas pancadas, novas torturas. Por que não se acabava logo aquilo? Bati com a mão na mesa e isto me arrancou um grito que abafei e se transformou em praga imunda. Por que não me vinham buscar os miseráveis da polícia? Por que faziam comigo aquela brincadeira de gato com rato? Eu os acompanharia, mostraria a roupa rasgada, os fios da gravata no monturo, falaria no cigarro oferecido pelo vagabundo. Por que não vinham logo? Muitos anos nas redes sujas, nas esteiras de pipiri. Escreveria um livro. A ideia do livro aparecia com regularidade. Tentei afastá­-la, porque realmente era absurdo escrever um livro numa rede, numa esteira, nas pedras cobertas de lama, pus, escarro e sangue. Olhava as telhas, movediças, a garrafa de aguardente, movediça. O livro só poderia ser escrito na prisão, em cima das pedras, na esteira, na rede, sob as cortinas de pucumã. Um livro escrito a lápis, nas margens de jornais velhos. Os objetos deformavam-se. A janela e a porta do quintal, a porta da cozinha e a do corredor estavam cheias de gente. Estirei o pescoço, observei o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas. Retraí-me. Em vez de se entregarem ao trabalho, eles me espionavam. O movimento de estirar o pescoço para vê-los era horrível. O que mais me doía eram os braços, principalmente as mãos. Encolhi o pescoço, tentei metê-lo no corpo. Um, dois, um, dois. Eram as pancadas do pêndulo. Não prestava atenção a elas durante o dia. À noite percebiam-se bem, mas de dia, com o barulho que vinha de fora, não havia relógio. Como Vitória se demorava! O galope dos cavalos não me saía dos ouvidos, crescia, como se avançasse no paralelepípedo. Donde vinham aqueles cavalos? A cabeça tombou num cochilo. Aprumei-me, bocejei, estirei os braços doloridos. Recostei-me na cadeira e cerrei os olhos. Passei a língua seca como língua de papagaio pelos beiços gretados e cobertos de películas. Arrastei-me até a moringa, bebi alguns copos de água. Tantas horas com a garganta pegando fogo, suportando aquilo inutilmente. Com certeza a febre ia crescer. O corpo morrinhento pedia cama. O rumor das carapanãs misturava-se ao tropel dos cavalos. Achei-me sentado, murmurando palavras desconexas. O suor corria entre os pelos da barba. Passei o lenço na cara e no pescoço, mas retirei logo a mão.

“Sou uma pessoa muito hábil.”

Os cavalos tinham agora um trote macio que não se distinguia da música das carapanãs. Aborrecia-me saber que os cavalos não existiam, as carapanãs não existiam, os indivíduos que atravancavam as portas não existiam.

“Uma pessoa muito hábil.”

A roupa molhada colava-se ao corpo. A sede voltou, bebi outro copo de água. Pensei em fumar e isto me produziu um estremecimento. Mas então? Um sujeito hábil, sem dúvida. Tudo muito direito. Na casa de d. Rosália as crianças gritavam e Antônia lavava a louça. Na casa de seu Ramalho d. Adélia varria a sala de jantar. Ouvia-se o chiar da vassoura. Pancadas de pratos, gritos de crianças, risos, pragas.

“Um sujeito hábil.”

Que burrice repetir isso! Estirei a cabeça cautelosamente. A mulher magra e o homem triste dedicavam-se às suas ocupações e não me viam. Uma criatura ordinária, um funcionário que faltava à repartição. Vitória voltou, mas isto não teve importância. As carapanãs e os cavalos preocupavam-me demais para prestar atenção a Vitória. Um funcionário. Pus-me a rir como um idiota. Continuaria a escrever informações, a bater no teclado da máquina, a redigir artigos bestas. “Perfeitamente.” O sorriso sem-vergonha concordando com tudo. “Perfeitamente.” Não tinha praticado nenhuma façanha, não tinha conversado com o vagabundo, na véspera. Eu? No quarto pequeno junto à escada, o cheiro do gás era insuportável. Andavam percevejos no papel da parede, manchado e descolado. Aborrecia-me o estudo cacete de Dagoberto. Mas quando ele empurrava a porta, jogava na cama a cesta e o compêndio, acovardava-me, sorria, abria o livro ou pegava o osso e começava a amolação. “Perfeitamente, Dagoberto.” Para que diabo me servia conhecer as vértebras e o frontal? Não ia ser médico. Mas lia, para não desgostar o rapaz. Olhei a garrafa de aguardente, vazia, pensei em seu Ivo, em seu Evaristo e em Cirilo de Engrácia. Com os braços esmorecidos sobre a mesa, via as paredes afastarem-se, as telhas subirem e descerem. Ia dormir, descansar, tresvariar. Levantei-me de chofre. Um rebuliço na casa de seu Ramalho. Fui encostar-me à parede. Gritos, o cabo da vassoura batendo no chão, risos nervosos e a fala morna de d. Adélia:

“Quem faz neste mundo paga é aqui mesmo. Quando Deus tarda, vem em caminho.”

Olhei os quatro cantos. Não tinha nada com aquilo. Ia trancar-me, enrolar-me nos lençóis, tremer, ranger os dentes como um caititu. Não tinha nada com aquilo. A garrafa de aguardente estava vazia. As carapanãs zumbiam. O vagabundo me dera um cigarro. A mulher tinha dito: “Deixa de luxo, minha filha. Será o que Deus quiser”. Eu ficava afastado de tudo. Afastei-me da parede e arregalei os olhos para a mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas. Não tinha nada com aquilo. “Um artigo, seu Luís.” Seu Luís escrevia. “Perfeitamente, Dagoberto.” Eu? As telhas dançavam, era extraordinário que se pudessem equilibrar, não viessem espatifar-se no chão, bater-me na cabeça.

“Não fui eu”, gritei recuando e tropeçando na cadeira.

Os cabelos arrepiavam-se, um frio agudo entrou-me na carne, os dentes tocaram castanholas. Nada havia acontecido comigo. Senti-me vítima de uma grande injustiça e tive desejo de chorar. Vieram-me lágrimas, que esmaguei. Eu estava de parte, ouvindo o zum-zum das carapanãs.

“Não fui eu. Escrevo, invento mentiras sem dificuldade. Mas as minhas mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino.”

Olhei as mãos. Pareceram mais curtas e mais largas que as mãos ordinárias que escreviam artigos elogiando o governo. Os dedos inchados eram mais curtos e mais grossos. Necessário fechar as portas. Outro vagabundo viria bater e confundir-se com o homem da polícia. Os braços doíam-me, as mãos penduradas doíam-me. Cruzei os braços, fui à cozinha. Vitória cortava carne em cima da mesa preta.

“Vitória, estou sem fome, ouviu?”

A mesa preta do necrotério. O médico, de avental. Nu­ma rua afastada, uma mulher chorando. As minhas mãos em carne viva.

“Estou muito doente, Vitória. Não quero almoçar. Dê a boia a algum maloqueiro que aparecer por aí. E feche as portas depois. Vou deitar-me, não me aguento nas pernas.”