Pular para o conteúdo

A casa era em Bebedouro, pequena, isolada. Julião Tavares chegava alta noite, entrava, demorava-se duas horas. Afastava-me, para não despertar suspeitas, mas à saída andava por ali e distinguia um vulto que tinha a gola do paletó erguida e evitava os pontos iluminados. Havia raros transeuntes, e a ligação durou pouco, não chegou a dar nas vistas.

Julião Tavares seguia pela rodagem, rente aos jardins dos palacetes adormecidos. Ou acompanhava a estrada de ferro, que atravessa a rua, ganha os fundos das casas. Ali era o silêncio, uma sombra que algumas lâmpadas muito distanciadas e os becos por onde espirra um pouco de luz interrompiam. A água do mangue apresentava manchas baças entre as árvores. Aproximando-me, ouvia perfeitamente os passos do homem nas folhas secas. Por que era que aquele sem-vergonha caminhava como se estivesse em casa, pisando no chão pago?

Em toda parte era assim. Derramava-se no bonde, e se alguém lhe tocava as pernas, desenroscava-se com lentidão e lançava ao importuno um olhar duro. Eu encolhia-me, reduzia-me e, em caso de necessidade, sentava-me com uma das nádegas. As viagens se tornavam horrivelmente incômodas, mas havia-me habituado a elas, e ainda que o carro estivesse deserto, não poderia espalhar-me como Julião Tavares: receava que me viessem empurrar e tomar, sem pedir licença, algumas polegadas da tábua estreita.

Aqueles modos davam-me a impressão de que tudo em roda era dele. Os passeios públicos eram dele. Certamente ninguém me proibia andar nos jardins, sentar-me, ver as mulheres. Mas as mulheres não reparavam em mim, pessoas conhecidas olhavam-me distraidamente. Demais, enquanto me achava ali, perseguia-me a recordação da vida ordinária, e isto me estragava a hora mesquinha de folga. Os canteiros, o coreto, os globos opalinos, não me serviam para nada. Estimaria que os fios da Nordeste encrencassem e a cidade ficasse às escuras. Mover-me-ia como um cego, esqueceria as mulheres pintadas que imitam d. Mercedes, esqueceria Julião Tavares, que estava em todos os bancos. A treva apagaria aquela exposição desagradável. Mas dar-me-ia a recordação de coisas mais desagradáveis ainda.

A gravata enrolava-se como uma corda sobre a camisa rasgada e suja, das bainhas das calças e dos cotovelos puídos saíam fiapos, manchas de poeira alastravam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se enevoavam por causa da fome e descobriam entre as árvores cenas irreais.

Agora Julião Tavares marchava no escuro, depois de ter abraçado a mocinha sardenta. Ia deitar-se, arrumar talvez uns versos indecentes a respeito de segredos de alcova. Àquela hora não tinha com quem desabafar. O café estava fechado, na praça deserta as luzes cochilavam. Derramaria a vaidade no papel, imprimi-la-ia no dia seguinte, os amigos lhe dariam parabéns e ele andaria como um pavão. Julião Tavares julgava-se superior aos outros homens porque tinha deflorado várias meninas pobres. Pelos modos, imaginava-se dono delas. Contrassenso. Então Marina era dele? Tolice. Era a mesma que eu tinha conhecido um ano antes, vermelha, com os cabelos pegando fogo, entre as roseiras maltratadas. Evidentemente.

Lembrava-me de sinha Germana, de Quitéria, das negras da fazenda. Sinha Germana só tinha conhecido um homem. As pretas não se envergonhavam de conhecer muitos homens. Que diferença! Descendo de sinha Germana, que dormiu meio século numa cama dura e nunca teve desejos. Adquiro ideias novas, mas estas ideias brigam com sentimentos que não me deixam. Sinha Germana dormia no couro de boi com o velho Trajano, e se dormisse de outra forma, não dava certo. Os costumes de sinha Germana eram superiores aos de Quitéria. Por quê? Não havia por quê, e isto me enraivecia. Um sujeito capaz de escrever sobre muitos assuntos entendendo-os mal, ou sem entendê-los, aceitar as opiniões de Camilo Pereira da Silva, de padre Inácio, de d. Rosália! Essas opiniões não tinham pé nem cabeça. Marina valia o que tinha valido antes de engrossar a barriga e procurar d. Albertina. As mesmas pernas bem-feitas, os mesmos braços que mexiam as roseiras do quintal pobre, os mesmos cabelos que pareciam oxigenados, os mesmos olhos traquinas. Mas as pernas não se curvavam para mostrar as nádegas apertadas na saia estreita, os braços moviam-se vagarosamente, pesados, os cabelos amarelos caíam sobre a testa enrugada, os olhos baixavam-se, cheios de culpa, desviando-se dos outros olhos. Esta consciência de inferioridade era contagiosa. Marina tinha descido. Logo me revoltava. Absurdo.

“Como as outras, como as outras. Mais bonita que a maioria das outras.”

Repetições inúteis. Não podia evitar a ideia de uma queda. De qualquer forma ela havia diminuído e habituava-se a esgueirar-se, a pedir desculpa a toda gente.

Seria para o futuro um trapo como d. Adélia:

“A senhora tem razão, d. Rosália. É isso mesmo, d. Rosália.”

Os sapatos vermelhos com o verniz rachado e os saltos gastos, roupas ordinárias, as unhas estragadas, a voz esmorecendo numa cantilena de aprovação.

“Como as outras. Estúpido, absolutamente estúpido.”

Furores perdidos. Marina permaneceria de vista baixa, esconder-se-ia como um rato e falaria gemendo, concordando com d. Rosália.