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Descobri por acaso que Julião Tavares tinha feito nova conquista. Foram duas ou três palavras soltas na rua que me deram a revelação. Pensei numa das filhas de Lobisomem e na datilógrafa dos olhos verdes.

Tudo isto é infantil, mas a verdade é que durante dias me atormentou a ideia de que Julião Tavares havia seduzido a menina dos olhos verdes. Para que lado morava ela? Nunca havia percebido a voz dessa criatura, não conhecia nenhum dos seus gostos, mas tinha certezas esquisitas e andava como um parente cheio de ciúmes ou como um cachorro que perdeu o faro, e não sossega.

Por que se tinha escondido a datilógrafa dos olhos verdes? Fugiria da polícia? Ou estaria de cama com a hemorragia produzida pela intervenção de uma d. Albertina? Agora Julião Tavares tomava um caminho, depois tomava outro — e eu imaginava que ela residia em Bebedouro, na Levada, em Jaraguá, no Farol, enfim admitia que nos quatro pontos cardeais existiam datilógrafas doentes. Todas elas estavam grávidas e procuravam os serviços de d. Albertina.

O bodegueiro cabeludo, com os cotovelos pregados no balcão, não via nada, só cuidava da sua vida. E Julião Tavares farejava as datilógrafas como um bode.

Por que andava com tanta pressa quando deixava o café? Entrava num bonde, espalhava-se no banco, feliz, o olho aceso, o charuto aceso. Ia encolher-me num dos últimos lugares, firmava as mãos no encosto do banco fronteiro, apoiava o queixo nas mãos e observava as costas de Julião Tavares. O cachaço gordo e mole como toicinho balançava com o movimento do carro. A mão curta de unhas cor-de-rosa fazia acenos para baixo. Transeuntes sorriam ao dono da mão curta de unhas brunidas. Eu notava com raiva aqueles sorrisos. Por que tanta subserviência nas caras abertas? Julião Tavares, patriota e orador, não prestava para nada. Nenhum favor esperavam dele. Mas sorriam por hábito. Eu também havia sorrido, amolado. Os cabelos de Julião Tavares começavam a escassear no alto da cabeça. Parecia que ele ia adquirindo uma espécie de tonsura. Falava alto, atirava cumprimentos aos conhecidos e era amável em excesso, mas a amabilidade traduzia-se em palavras vãs. O que me aborrecia era saber que essas palavras eram aceitas: tinham tido significação antigamente e continuavam a circular. Eu engulhava, metia a mão no bolso e apertava a corda.

Que fim teria levado seu Ivo? À toa, procurando nas fazendas e nas povoações muitas vezes percorridas alguma coisa ignorada. Bêbedo sempre, cochilando, babando, seu Ivo não encontra sossego. Uns foram para o Amazonas e acabaram-se no beribéri; outros andam pelo Sul, em concorrência com o estrangeiro. Seu Ivo, incapaz de fixar-se, índio e cigano, corre fazendas e povoações, pedindo, furtando. Não sabe tomar os objetos que necessita: pede, furta, é um indivíduo inferior. Por isso digo a Vitória quando ele me entra em casa:

“Vitória, preste atenção a seu Ivo. Cuidado para que ele não me abafe um livro.”

Inútil. O livro é abafado e oferecido adiante, como a corda que ele me deu.

Apalpava a corda. Mexia-me lentamente, pensava nos cabras que meu avô livrava peitando os jurados ou ameaçando a cadeia da vila. Apareciam no pátio, desarmados, varrendo o chão com chapéus de couro; mas quando tinham empreitada, dormiam na pontaria, passavam semanas por detrás de um pau, o clavinote escorado numa forquilha, algumas rapaduras e farinha de mandioca no bisaco.

Pouco a pouco tudo se transformava, a catinga da minha terra rodava aos solavancos nos trilhos da Nordeste. Escondia-me entre aquela vegetação de passageiros, sobre o encosto do banco apoiava-se um rifle imaginário dirigido às costas de Julião Tavares. Tudo nele me aparecia aumentado e deformado. Lembrava-me das conversas que me estragavam as noites, de palavras ouvidas através da parede da sala de jantar, de frases truncadas percebidas no café. O homem saltava, eu ia saltar um poste adiante e continuava a espreita. Notava as casas onde ele entrava, as caras das pessoas a que se dirigia.

Como consequência da investigação, descobri afinal a nova amante de Julião Tavares. Era uma criaturinha sardenta e engraçada que trabalhava numa loja de miudezas. Dentro de alguns meses estaria de barriga, visitando clandestinamente d. Albertina. Venderia as joias baratas, furtaria dinheiro na caixa para d. Albertina. Ou então haveria um espalhafato. Julião Tavares daria à mocinha sardenta quinhentos mil-réis para ela calar-se e passaria uns tempos aborrecido, ouvindo os sermões de Tavares pai.