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Em janeiro do ano passado estava eu uma tarde no quintal, deitado numa espreguiçadeira, fumando e lendo um romance. O romance não prestava, mas os meus negócios iam equilibrados, os chefes me toleravam, as dívidas eram pequenas — e eu rosnava com um bocejo tranquilo:

“Tem coisas boas este livro.”

Lia desatento, e as letras esmoreciam na sombra que a mangueira estirava sobre o quintal.

Moisés e Pimentel apareciam-me às vezes, e alguns rapazes acanhados vinham pedir-me em segredo artigos e composições poéticas, que eu vendia a dez, a quinze mil-réis. Isto chegava para o aluguel da casa — e dr. Gouveia não me importunava. Distraía-me com leituras inúteis. Quando me caía nas mãos uma obra ordinária, ficava contentíssimo:

“Ora, muito bem. Isto é tão ruim que eu, com trabalho, poderia fazer coisa igual.”

Os livros idiotas animam a gente. Se não fossem eles, nem sei quem se atreveria a começar.

Esse que eu lia debaixo da mangueira, saltando páginas, era bem safado. Por isso interrompia a leitura, acendia o cigarro.

Foi numa dessas suspensões que percebi um vulto mexendo-se no quintal da casa vizinha. Como já disse, existe apenas uma cerca separando os dois quintais. Do lado esquerdo há um muro, e ignoro completamente o que se passa além dele. Mas daquela banda o que temos é a cerca baixa, que Vitória conserta sempre por causa das galinhas e para guardar dinheiro nos pés das estacas podres. Para lá dessa linha de demarcação tudo me era familiar: o banheiro, paredes-meias com o meu, algumas roseiras, um monte de lixo que a inquilina, senhora idosa, às vezes queimava.

O vulto que se mexia não era a senhora idosa: era uma sujeitinha vermelhaça, de olhos azuis e cabelos tão amarelos que pareciam oxigenados. Foi só o que vi, de supetão, porque não sou indiscreto, era inconveniente olhar aquela desconhecida como um basbaque. Demais não havia nada interessante nela.

Onde andaria a senhora idosa, que todas as manhãs ia regar as plantas, com um pano branco amarrado à cabeça? Mudara-se, provavelmente, e aquela que ali estava devia ser moradora nova.

“Sim senhor”, disse comigo, “muito poética, aí entre as roseiras, com os cabelos pegando fogo e a cara pintada.”

Sentia a ausência da senhora idosa, cheia de rugas, tranquila, um pano amarrado à cabeça e o regador na mão, movendo-se tão devagar que era como se estivesse parada. Essa outra estava em todos os lugares ao mesmo tempo, ocupava o quintal inteiro. Um azougue.

“Que diabo tem ela?”

E mergulhei na leitura, desatento, está claro, porque o livro não valia nada. Virava a página muitas vezes, e quando isto acontecia, olhava, fingindo desinteresse, a mulher dos cabelos de fogo. Tinha as unhas pintadas.

“Lambisgoia!”

Fiquei lendo o romance, péssimo romance, enquanto a tipinha se mexeu entre as roseiras. Notei, notei positivamente que ela me observava. Encabulei. Sou tímido: quando me vejo diante de senhoras, emburro, digo besteiras. Trinta e cinco anos, funcionário público, homem de ocupações marcadas pelo regulamento. O Estado não me paga para eu olhar as pernas das garotas. E aquilo era uma garota. Além de tudo sei que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em casa. Os olhos baços, a boca muito grande, o nariz grosso. Como se chamava a senhora idosa que vinha regar as plantas? A verdade é que nunca me empatou a leitura. Fiquei ali até que escureceu e a mulherinha deu o fora. Mais tarde informei-me:

“Ó Vitória, a vizinha aqui da direita mudou-se?”

“Morreu”, disse Vitória depois de me fazer repetir a pergunta quatro vezes, porque era lua nova e ela estava inteiramente surda. “O senhor não viu o enterro? Pois é. Agora há outros moradores.”

Pobre da velha. Morta e enterrada, e eu nem havia percebido alteração na casa.

Moisés e Pimentel apareceram à noite e conversaram muito, mas ouvi-os distraído.

Além das plantas mencionadas, havia também um mamoeiro no quintal vizinho. Era engraçada o diabo da pequena. Para o inferno. Um homem lido e corrido, pegando trinta e cinco anos, amolecendo, preocupando-se com aquela guenza!

“Vamos deixar de tolice.”

E contrariei Pimentel e Moisés, arranjei umas opiniões descabidas, porque realmente não sabia o que eles estavam dizendo.

No dia seguinte (era sábado e não havia expediente à tarde) sentei-me de novo à sombra da mangueira, com o romance. A coisinha loura tornou a aparecer, em companhia de uma mulherona sardenta, e começaram ambas a cortar os ramos secos das roseiras. A pequena estouvada não me prestava atenção: descontentara-a provavelmente o exame da véspera. Um sujeito feio: os olhos baços, o nariz grosso, um sorriso besta e a atrapalhação, o encolhimento que é mesmo uma desgraça.

Apesar destas desvantagens, os negócios não iam mal. E foi exatamente por me correr a vida quase bem que a mulherinha me inspirou interesse — novidade, pois sempre fui alheio aos casos de sentimento. Trabalhos, compreendem? Trabalhos e pobreza. Às vezes o coração se apertava como corda de relógio bem enrolada. Um rato roía-me as entranhas.

Nestes últimos tempos nem por isso. Antigamente era uma existência de cachorro. As mulheres tinham cheiros excessivos, e eu me sentia impelido violentamente para elas. Mas a voz do chefe da revisão estava colada aos meus ouvidos:

“Suspenso por cinco dias, seu Silva.”

A unha suja de tinta riscava na prova o corpo de delito. Vida de cachorro. Como iria pagar a pensão?

“D. Aurora, tenha paciência. Veja se me arranja um quarto mais barato. Os tempos andam safados, d. Aurora.”

As ruas estavam cheias de mulheres. E o rato roía-me por dentro.

Ora, um dia, sem motivo, convidei d. Aurora para o cinema. Tenho desses rompantes idiotas. Faço uma tolice sabendo perfeitamente que estou fazendo tolice. Quando tento corrigir o disparate, caio noutro e cada vez mais me complico. Foi o que se deu. Convidei d. Aurora e a neta para o cinema. Arrependi-me e ofereci-lhes refrescos. Aceitaram tudo — e começou a minha tortura. Lá fui com elas, capiongo, pagar bonde, sorvetes e três cadeiras. Tipo besta.

“Aguenta, maluco, trouxa, filho de uma puta.”

E contava mentalmente o dinheiro suado e mesquinho. Na sala de projeção a neta de d. Aurora abriu um leque enorme em cima das coxas e meteu a minha perna entre as dela. Subitamente o rato deixou de roer-me. O que eu estava era indignado. E calculava. Três passagens de bonde — mil e duzentos. Três sorvetes — três vezes cinco, quinze. E entradas no cinema. As coxas da moça eram frias. Com certeza fazia aquilo por hábito. Naquele tempo eu andava como um bode. Mas esfriei também. Cinco mil-réis por seis horas de trabalho à noite, suspensões, multas, o jornal indo para cima e para baixo. Era um sofrimento a ideia de que no fim da quinzena ficaríamos sem o cobre que estava enganchado.

“Hoje ninguém recebe.”

Lá ia, de cabeça baixa, beber um copo de caldo de cana e comer um pastel. Os níqueis amarrados como dinheiro de matuto. Pois, numa quebradeira assim, bonde, sorvete, cinema. E ainda faltavam as passagens de volta. A fita era tão comprida! A moça tinha as pernas frias.

Aquela que estava ali a meia dúzia de passos, cortando os ramos secos das roseiras, vermelha como pimenta, os braços levantados mostrando os sovacos, devia ser quente demais.

“Carga de risco!”

A mulher sardenta e sarará tinha traços dela.

Com o livro esquecido nos joelhos, o cigarro apagado, o olho meio cerrado, lembrei-me com preguiça de coisas vagas, sem importância. Havia no Cavalo-Morto uma rapariga desbragadíssima. Não tinha decoro, amava aos gritos, como os gatos e os ciganos. Em horas de recolhimento natural berrava danadamente:

“Rasga, diabo! Vai fazer isso com tua mãe, peste!”

Eu era muito moço, e aquela fúria me espantava. Amores selvagens.

Da janela de seu Antônio Justino via-se um jardim bem tratado, onde três mulheres velhas que pareciam formigas cavavam, podavam, regavam.

Berta, uma alemãzinha bonita que antigamente conheci, também tinha as unhas pintadas e pontiagudas. Aquilo arranhava docemente. A primeira mulher de jeito com quem me atraquei. Eu levava no bolso uns dinheiros curtos ganhos no jogo e a carta de recomendação que um deputado, depois de muitos salamaleques e muitas viagens, me havia dado na câmara para o diretor de um jornal. Cada solecismo horrível. Metia a mão no bolso e certificava-me de que as pelegas machucadas e os solecismos existiam. Ia de cabeça baixa, ruminando projetos. De repente uma voz estrangeirada, cheia de rr, gargarejou perto de mim:

“Senhor não quer entrar?”

E duas mãos miúdas agarraram-me um braço, arrastaram-me por uma porta até a escada. Escorei-me ao corrimão, acuado, pigarreei com um nó na garganta:

“Madame, eu sou um bicho do mato, nunca me encostei a uma pessoa como a senhora. Seja franca, madame. Quanto é que lhe devo dar?”

Berta era engraçada: lourinha, gordinha, uma voz suave, apesar dos rr.

“Deixa disso. Não faz feio.”

E eu, a mão no bolso, apertando os cobres:

“Não brinque, madame. Sou um sertanejo, um bruto, um selvagem. Quanto é que a senhora costuma receber?”

Bonitinha, Berta. E mais decente que a neta de d. Aurora. Bonde, cinema, refrescos. Menina viciada. Dagoberto fugia dela. Uma piranha. Ser roído por aquilo! Ah! não. Lembrava-me dos bancos do passeio, das botinas de elástico bambo.

“Senhor, um nordestino perseguido pela adversidade apela para v. excia.”

E o frege-moscas fedorento, as toalhas cobertas de nódoas de vinho, boia nauseabunda, o galego, de tamancos, sujo, cantando. Com semelhantes recordações, quem pensa em mulheres?

A mocinha, no lado de lá da cerca, não me dava atenção. Perua. Cabelos de milho, unhas pintadas, beiços vermelhos e o pernão aparecendo.

“Às vezes aquilo é só a casca. Por baixo — marcas de feridas e molambos. Sirigaita. Sou um homem prático, passado pelos corrimboques do diabo, lido e corrido. Para o inferno.”

Levantei-me, aprumei-me e recolhi-me, com o livro debaixo do braço, a cara enferrujada, importante. Na véspera o diretor me tinha dito:

“Necessitamos um governo forte, seu Luís, um governo que estique a corda. Esse povo anda de rédea solta. Um governo duro.”

E eu havia concordado, naturalmente:

“É o que eu digo, doutor. Um governo duro. E que reconheça os valores.”

Considerava-me um valor, valor miúdo, uma espécie de níquel social, mas enfim valor. O aluguel da casa estava pago. Andava em todas as ruas sem precisar dobrar esquinas. Por uma diferença de dois votos, tinha deixado de ser eleito secretário da Associação Alagoana de Imprensa. Quinhentos mil-réis de ordenado. Com alguns ganchos, embirava uns setecentos. Podia até casar. Casar ou amigar-me com uma criatura sensata, amante da ordem. Nada de melindrosas pintadas. Mulher direita, sisuda. Passar a vida naquela insipidez, aguentando uma criada surda, reumática, cheia de manias!

“Ó Vitória”, gritei ao ouvido da velha, “quem é essa gente que chegou aí ao lado?”

Vitória não sabia. Tentei ler um artigo político de Pimentel, mas estava distraído, pensava em Berta, na neta de d. Aurora e na rapariga do Cavalo-Morto. Deitei-me cedo. Não pude dormir: os cabelos de fogo, os olhos e especialmente as pernas da vizinha começaram a bulir comigo. Aquilo devia ser uma pimenta. Passei a noite imaginando cenas terríveis com ela. No outro dia levantei-me aperreado. Quando me aparecem esses acessos, fico assim uma semana, calado, murcho, pensando em safadezas.