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A minha criada Vitória anda em cinquenta anos, é meio surda e possui um papagaio inteiramente mudo, que pretende educar assim:

Currupaco, papaco,
A mulher do macaco
Ela fia, ela cose,
Ela toma tabaco
Torrado no caco.

O papagaio prega na velha o olho redondo. Em seguida cerra as pálpebras e baixa a cabeça. Às vezes se aborrece da gaiola e bate as asas. A dona corre para o quintal e espia a folhagem da mangueira:

“Meu louro, meu louro! Currupaco, papaco. Meu louro! Onde andará o sem-vergonha desse papagaio?”

Só se acomoda depois de percorrer a vizinhança e encontrar o fugitivo. Pega então a parolar com ele, que não diz nada. Quando se cansa, agarra o jornal e lê com atenção os nomes dos navios que chegam e dos que saem. Nunca embarcou, sempre viveu em Maceió, mas tem o espírito cheio de barcos. Dá-me frequentemente notícias deste gênero:

“O Pedro ii chega amanhã. O Aratimbó vem com atraso. Terá havido desastre?”

Não sei como se pode capacitar de que a comunicação me interessa. Há três anos, quando a conheci, a mania dela me espantava. Agora estou habituado. Leio o jornal e deixo-o em cima da mesa, dobrado na página em que se publica o movimento do porto. Vitória toma a folha e vai para a cozinha ler ao papagaio a lista dos viajantes.

No princípio do mês, quando se aproxima o recebimento do ordenado, excita-se e não larga o Diário Oficial.

“Faltam dois dias, falta um dia, é hoje.”

E faz cálculos que não acabam, cálculos inúteis, porque não gasta nada: usa os meus sapatos velhos e traz um xale preto amarelento que deve ter dez anos. Recolhe a mensalidade e mete-se no fundo do quintal, põe-se a esgaravatar a terra como se plantasse qualquer coisa. Esquece os navios e as lições ao papagaio.

Volta a tratar das ocupações domésticas, mas de quando em quando lá vai rondar a mangueira e acocorar-se junto ao canteiro das alfaces. Dá um salto à cozinha, fala com o louro, tempera a boia. Minutos depois está novamente remexendo a terra.

Observo esses manejos. Sentindo-se observada, levanta-se, deita água no caco das galinhas, vai ao banheiro, sai com uma braçada de roupa, que estende no arame esticado entre a cerca e um dos ramos da mangueira. Entra em casa, abre o jornal e anuncia:

“O delegado fiscal viajou ontem.”

Nota, pela minha cara, que o delegado fiscal não me interessa e dá uma notícia importante:

“O arcebispo chegou do Rio.”

Escapole-se, vai consertar a cerca, tapar os buracos por onde passam bichos que estragam a horta. Da minha cadeira vejo-lhe o cocó grisalho, a cabeça curva, atenta sobre a terra que escava, fingindo tratar dos canteiros ou fincar as estacas da cerca. No outro dia tirará as estacas, que, de tanto removidas, fizeram ali uma espécie de porteira.

Nem à noite a pobre descansa: levanta-se pela madrugada e abre a porta do fundo, cautelosamente. Cautela inútil. Como é meio surda, pensa que não faz barulho, mas arrasta os sapatões com força, e as pernas reumáticas atiram-na contra os móveis, às escuras, tropeçam nos degraus de cimento quebrado. Ausenta-se uma hora. Depois a porta range de novo e as pisadas reaparecem. Daí a pouco está a criatura resmungando, fazendo contas intermináveis. Erra os números e recomeça. Esta agitação dura quatro, cinco dias por mês. Sossega, volta às listas dos passageiros, à tagarelice com o papagaio:

Currupaco, papaco,
A mulher do macaco…

A voz é áspera e desdentada. E, acompanhando a cadência, tremem as pelancas do pescoço engelhado como um pescoço de peru, tremem os pelos do buço e as duas verrugas escuras. É terrivelmente feia.

Logo que me entrou em casa, descobri nela uma particularidade alarmante. Sou um desleixado. Quando mudo a roupa, esqueço papéis nos bolsos. Deixo frequentemente níqueis e pratas sobre os móveis. Essas frações de pecúnia somem-se, e certa vez desapareceu-me da carteira uma cédula de cinquenta mil-réis. As faltas coincidem com uma grande excitação da velha. Recomeçam as fugas para o quintal. Vendo-lhe o cocó bambeante entre as folhas de alface, sei perfeitamente que ela está enterrando o dinheiro. Descubro ao pé da cerca, junto à raiz da mangueira, covas frescas.

Assustei-me a princípio, depois me tranquilizei. A nota de cinquenta mil-réis foi achada entre as páginas de um livro. E as moedas voltam para os lugares donde saíram. Finjo não prestar atenção a elas, para a mulher não se ofender, meto algumas no bolso, com indiferença. Só quando estou necessitado, digo por alto, escolhendo as palavras:

“Vitória, hoje pela manhã deixei cair umas pratas no chão. Apanhei duas ou três, mas parece que as outras rolaram para trás da cama. Você, varrendo o quarto, não terá encontrado algumas?”

Vitória estica-se, o pescoço encarquilhado incha, os olhos miúdos fuzilam, as verrugas tremem indignadas:

“O senhor tem cada uma! Se não está satisfeito comigo, é dizer. Já vivi em muita casa de gente rica, seu Luís. Criei-me vendo dinheiro, seu Luís. Se não está achando bom, é arriar a trouxa. Desconfiança comigo, não.”

“Deixe disso, criatura. Quem falou em desconfiança? É que derrubei as moedas. Que você não viu está claro, não se discute. Dê uma busca.”

“Ah!” exclama Vitória. “Eu não tinha compreendido bem.”

Torna-se amável, coça o queixo cabeludo, puxa conversa fora de propósito, a voz sumida, uns risinhos encabulados. Julgando-me distraído, afasta-se nas pontas dos pés, olhando-me com o rabo do olho, e vai apanhar alfaces. Daí a pouco volta, entra no quarto, arrasta a cama, examina os cantos da parede:

“Só vejo teia de aranha.”

De repente aparece chocalhando as moedas:

“Estão aqui. Não sei quando o senhor quer tomar jeito. A vida inteira perdendo dinheiro!”

Guardo algumas pratas e deixo o resto em cima da mesa. Não há perigo. Receio é que Vitória se engane nas contas e me traga mais que o que tirou.