Sêneca saúda seu caro Lucílio.
§ 1
Reconheço que nos é inato o amor por nosso corpo; reconheço que o temos sob nossa guarda. Não nego que se deva ser indulgente com ele; nego que se deva servi-lo. Pois servirá a muitos quem serve ao corpo, quem teme demais por ele, quem relaciona tudo a ele.
§ 2
Devemos nos conduzir não como se devêssemos viver para o corpo, mas como se não pudéssemos viver sem o corpo. O amor excessivo por ele nos inquieta com medos, sobrecarrega-nos de preocupações, expõe-nos a humilhações. O honesto é desprezível para quem preza demais o corpo. Cuide-se do corpo com toda a diligência, mas, quando a razão o exigir, quando a dignidade o exigir, quando a lealdade o exigir, será preciso lançá-lo às chamas.
§ 3
Ainda assim, tanto quanto pudermos, evitemos também os incômodos, não apenas os perigos, e nos recolhamos a um lugar seguro, refletindo continuamente sobre os meios de afastar as coisas temíveis. Se não me engano, elas pertencem a três gêneros: teme-se a pobreza, temem-se as doenças, teme-se aquilo que acontece pela violência de alguém mais poderoso.
§ 4
De tudo isso, nada nos abala mais do que aquilo que paira sobre nós por obra do poder alheio. Pois vem com grande estrondo e tumulto. Os males naturais que mencionei, a pobreza e a doença, aproximam-se em silêncio e não incutem terror algum nem nos olhos nem nos ouvidos. Imenso é o cortejo daquele outro mal. Tem ao redor de si o ferro e as chamas e as correntes e uma multidão de feras para lançar contra as entranhas humanas.
§ 5
Pense aqui no cárcere e nas cruzes e nos cavaletes e no gancho e na estaca cravada através de um homem até sair pela boca e nos membros dilacerados por carros lançados em direções opostas, naquela túnica impregnada e tecida com materiais que alimentam o fogo, e em tudo o mais que a crueldade inventou além dessas coisas.
§ 6
Não é de admirar, portanto, que o maior medo seja o daquilo cuja variedade é grande e cujo aparato é terrível. Pois, assim como o torturador consegue mais quanto mais instrumentos de dor expôs (pois são vencidos pela aparência os que teriam resistido com firmeza), assim também, entre as coisas que submetem e domam nossas almas, conseguem mais as que têm algo a mostrar. As outras pragas não são menos graves, refiro-me à fome e à sede e às supurações dos órgãos internos e à febre que abrasa as próprias entranhas. Mas ficam escondidas, nada têm para brandir, para exibir; aquelas, como grandes guerras, venceram pelo aspecto e pelo aparato.
§ 7
Esforcemo-nos, portanto, por evitar ofensas. Às vezes é o povo que devemos temer; às vezes, se a organização do Estado confia ao senado a maior parte das decisões, são os homens influentes que nele se encontram; às vezes, são indivíduos aos quais foi dado o poder do povo e sobre o povo. Ter todos eles como amigos é trabalhoso; basta não tê-los como inimigos. Por isso o sábio nunca provocará a ira dos poderosos; pelo contrário, se desviará dela, como de uma tempestade ao navegar.
§ 8
Quando se dirigia à Sicília, você atravessou o estreito. Um piloto temerário desprezou as ameaças do vento sul, pois é ele que enfurece o mar da Sicília e o impele a formar redemoinhos; não procura a costa esquerda, mas a que fica mais perto de Caríbdis, que revolve os mares. Um piloto mais cauteloso, porém, pergunta aos conhecedores do lugar como está a maré, que sinais dão as nuvens; mantém o rumo longe daquela região de má fama por seus redemoinhos. O sábio faz o mesmo: evita o poder que lhe fará mal, cuidando antes de tudo para não parecer que o evita. Pois parte da segurança consiste também em não procurá-la abertamente, porque quem foge de alguma coisa a condena.
§ 9
Devemos, portanto, examinar como podemos ficar a salvo da multidão. Primeiro, não desejemos as mesmas coisas que ela; há briga entre concorrentes. Em seguida, não tenhamos nada que possa ser arrancado com grande proveito para quem arma uma emboscada. Que haja em seu corpo o mínimo possível de despojos. Ninguém busca o sangue humano pelo sangue em si, ou pouquíssimos o fazem. São mais os que calculam do que os que odeiam. O ladrão deixa passar quem está nu; até numa estrada sitiada há paz para o pobre.
§ 10
Em seguida, segundo um antigo preceito, devemos evitar três coisas: o ódio, a inveja e o desprezo. Somente a sabedoria mostrará como isso pode ser feito. Pois é difícil encontrar a medida, e devemos recear que o medo da inveja nos faça cair no desprezo, que, enquanto não queremos pisotear, pareça que podemos ser pisoteados. Para muitos, poder ser temido trouxe motivos para temer. Recuemos de todos os lados; ser desprezado não é menos nocivo do que ser admirado.
§ 11
Devemos, portanto, refugiar-nos na filosofia; esses estudos, não digo entre os bons, mas entre os moderadamente maus, servem de faixas sagradas. Pois a oratória dos tribunais e qualquer outra que mova o povo têm adversários; a filosofia, tranquila e ocupada com seus próprios assuntos, não pode ser desprezada, ela que recebe honra de todas as artes, mesmo entre os piores. A perversidade nunca ganhará tanta força, nunca se conspirará a tal ponto contra as virtudes que o nome da filosofia deixe de ser venerável e sagrado.
De resto, a própria filosofia deve ser praticada com tranquilidade e modéstia.
§ 12
“E então?”, diz você. “Parece-lhe que Marco Catão filosofa com modéstia, ele que tenta conter a guerra civil com seu parecer? Que se interpõe em meio às armas de chefes enfurecidos? Que, enquanto uns ofendem Pompeu e outros César, provoca os dois ao mesmo tempo?”
§ 13
Alguém pode discutir se, naquele tempo, o sábio deveria ter tomado parte na vida pública. “O que pretende, Marco Catão? Já não se trata da liberdade; ela foi destruída há muito tempo. A questão é saber se César ou Pompeu possuirá o Estado; o que você tem a ver com essa disputa? Nenhum dos lados é o seu; escolhe-se um senhor. Que lhe importa qual dos dois vencerá? Pode vencer o melhor; não pode deixar de ser pior quem vencer.” Mencionei os últimos atos de Catão. Mas nem sequer os anos anteriores permitiam que o sábio se envolvesse naquele saque do Estado; que fez Catão além de gritar e lançar palavras inúteis, quando ora era erguido pelas mãos da multidão, coberto de cusparadas e arrastado para fora do fórum, ora era conduzido do senado à prisão?
§ 14
Veremos mais tarde, porém, se o sábio deve prestar serviço ao Estado; enquanto isso, convido você a se juntar a esses estoicos que, excluídos da vida pública, se retiraram para cultivar a vida e estabelecer leis para o gênero humano sem ofender nenhum homem mais poderoso. O sábio não perturbará os costumes comuns nem atrairá sobre si a atenção do povo pela novidade de seu modo de vida.
§ 15
“E então? Estará com certeza seguro quem seguir esse propósito?” Não posso lhe prometer essa segurança, assim como não posso prometer boa saúde a um homem moderado; e no entanto a moderação produz boa saúde. Um ou outro navio perece no porto; mas o que você acredita que acontece em alto-mar? Quanto mais exposto ao perigo estaria, se muito agisse e empreendesse, aquele para quem nem mesmo o ócio é seguro? Às vezes perecem os inocentes; quem o nega? Os culpados, porém, com mais frequência. A habilidade de quem foi atingido através da armadura permanece intacta.
§ 16
Enfim, o sábio considera em todas as coisas a deliberação, não o resultado. As iniciativas estão em nosso poder; sobre o desfecho decide a fortuna, a quem não concedo o direito de me julgar. “Mas ela trará algum sofrimento, alguma adversidade.” O ladrão não profere uma sentença de condenação quando mata.
§ 17
Agora você estende a mão para receber a contribuição de cada dia. Vou enchê-lo de ouro com minha contribuição e, já que se falou em ouro, saiba como o uso e o desfrute dele podem lhe ser mais agradáveis. “Desfruta mais das riquezas aquele que menos carece delas.” “Diga”, diz você, “quem é o autor.” Para que saiba como somos generosos, nosso propósito é louvar o que é dos outros; a máxima é de Epicuro, ou de Metrodoro, ou de alguém daquela mesma oficina.
§ 18
E que diferença faz quem a disse? Foi para todos que a disse. Quem carece de riquezas teme por elas. Ninguém, porém, desfruta de um bem que lhe causa preocupação; procura acrescentar algo às suas riquezas. Enquanto pensa no aumento, esquece o uso. Recebe prestações de contas, desgasta o chão do fórum, folheia o livro de dívidas; de senhor, torna-se administrador. Passe bem.