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Sêneca saúda seu caro Lucílio.

§ 1

Era costume entre os antigos, conservado até a minha época, acrescentar às primeiras palavras de uma carta: “Se você está bem, está tudo bem; eu estou bem.” Nós, com razão, dizemos: “Se você se dedica à filosofia, está tudo bem.” Ora, só isso é estar bem. Sem filosofia, a alma está doente. E o corpo, ainda que tenha grande força, tem apenas o vigor de um furioso ou de um homem em delírio febril.

§ 2

Portanto, cuide principalmente da saúde da alma e, em segundo lugar, também da saúde do corpo, que não lhe custará muito se você quiser estar bem. Pois é uma ocupação insensata, meu caro Lucílio, e nada conveniente a um homem instruído, exercitar os braços, engrossar o pescoço e fortalecer os flancos; quando a engorda tiver produzido bom resultado e seus músculos tiverem crescido, você nunca igualará nem a força nem o peso de um boi cevado. Acrescente agora que um corpo mais pesado esmaga a alma e a torna menos ágil. Portanto, tanto quanto puder, imponha limites a seu corpo e abra espaço para a alma.

§ 3

Muitos incômodos acompanham os que se entregam a esse cuidado; primeiro, os exercícios, cujo esforço esgota o espírito e o torna incapaz de concentração e de estudos mais exigentes. Em seguida, a abundância de alimentos prejudica a agudeza do pensamento. Somam-se a isso escravos da pior espécie, a quem se entrega a autoridade de mestres, homens ocupados entre o óleo e o vinho, para quem o dia transcorreu como desejavam se suaram bastante, se repuseram, no lugar do que escorreu, uma grande quantidade de bebida, que penetrará mais fundo por causa do jejum. Beber e suar é a vida de quem sofre do estômago.

§ 4

Há exercícios fáceis e breves, que cansam o corpo sem demora e poupam o tempo, que se deve levar em conta antes de tudo: a corrida, o movimento das mãos com algum peso e o salto, seja aquele que ergue o corpo, seja o que o lança para a frente, seja aquele, por assim dizer, dos sálios ou, para falar com mais desprezo, dos pisoeiros. Escolha entre eles qualquer prática simples e fácil.

§ 5

Faça o que fizer, volte depressa do corpo para a alma. Exercite-a durante as noites e os dias; ela se alimenta de um esforço moderado. Nem o frio, nem o calor impedirão esse exercício, nem sequer a velhice. Cuide do bem que melhora com a idade.

§ 6

Não lhe ordeno que permaneça sempre inclinado sobre um livro ou sobre suas tabuinhas; é preciso dar algum intervalo à alma, porém de maneira que ela não se dissolva, mas relaxe. Um passeio de liteira sacode o corpo e não prejudica o estudo; você pode ler, pode ditar, pode conversar, pode ouvir, e nem mesmo uma caminhada impede qualquer dessas atividades.

§ 7

Não despreze tampouco o exercício da voz, embora eu o proíba de elevá-la por graus e em modulações determinadas para depois baixá-la. E se, em seguida, você quiser aprender como caminhar? Receba esses homens aos quais a fome ensinou novas artes; haverá quem regule seus passos e observe suas bochechas enquanto você come, e ele avançará na mesma medida em que você estimular a audácia dele com sua tolerância e credulidade. E então? Sua voz começará imediatamente com um grito e com o máximo esforço? É tão natural ganhar intensidade pouco a pouco que até os que discutem começam pela conversa e passam aos gritos. Ninguém começa logo a clamar por socorro aos cidadãos romanos.

§ 8

Portanto, conforme lhe sugerir o impulso da alma, lance suas invectivas ora com mais veemência, ora com mais brandura, conforme também a voz o incitar nessa direção. Quando você a recolher e a fizer voltar, que ela desça com moderação, não desabe; que saia da boca num tom intermediário e não se enfureça à maneira inculta e rústica. Pois não procuramos exercitar a voz, mas fazer com que ela nos exercite.

§ 9

Livrei você de um trabalho nada pequeno; a esses benefícios se acrescentará um pequeno pagamento e um dito grego. Eis um preceito notável: “A vida insensata é ingrata e inquieta; é levada inteiramente para o futuro.” “Quem diz isso?”, pergunta você. O mesmo de antes. Que vida você imagina que agora é chamada de insensata? A de Babas e Isião? Não é assim; fala-se da nossa, de nós, a quem um desejo cego precipita em coisas que nos farão mal, que certamente nunca nos saciarão, de nós, para quem, se alguma coisa pudesse bastar, já teria bastado, de nós, que não pensamos em como é agradável nada pedir, em como é magnífico estar pleno e não depender da fortuna.

§ 10

Portanto, Lucílio, lembre-se com frequência de quantas coisas você alcançou. Quando vir quantos vão à sua frente, pense em quantos vêm atrás. Se quiser ser grato aos deuses e à sua vida, pense em quantos você ultrapassou. O que você tem a ver com os outros? Você ultrapassou a si mesmo.

§ 11

Estabeleça um limite que você nem sequer queira ultrapassar, ainda que possa; afastem-se enfim esses bens traiçoeiros, melhores para quem os espera do que para quem os alcançou. Se houvesse neles algo de sólido, em algum momento também nos preencheriam; agora, atiçam a sede dos que bebem. Que se dispensem esses aparatos vistosos. E quanto aos bens que a sorte incerta do futuro traz, por que eu pediria à fortuna que me concedesse esses bens, em vez de pedir a mim mesmo que deixasse de pedi-los? E por que os pediria? Acumularei coisas, esquecido da fragilidade humana? Para que trabalharei? Eis que este é o último dia. Mesmo que não seja, está perto do último. Passe bem.

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