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Sêneca saúda seu caro Lucílio.

§ 1

Para onde quer que eu me volte, vejo provas da minha velhice. Eu tinha ido à minha propriedade nos arredores da cidade e me queixava das despesas com o edifício que caía aos pedaços. O administrador me diz que isso não se deve à sua negligência, que faz tudo, mas que a casa é velha. Essa casa cresceu entre minhas mãos; o que será de mim, se estão tão apodrecidas as pedras que têm a minha idade?

§ 2

Irritado com ele, agarro a primeira ocasião de manifestar meu mau humor. “É evidente”, digo, “que estes plátanos estão abandonados; não têm folha alguma. Como estão nodosos e ressequidos os galhos, como estão tristes e descuidados os troncos! Isso não aconteceria se alguém cavasse ao redor deles, se os regasse.” Ele jura pelo meu gênio que faz tudo, que em nada descuida delas, mas que as árvores são umas velhinhas. Aqui entre nós, fui eu que as plantei, fui eu que vi sua primeira folha.

§ 3

Voltando-me para a porta, digo: “Quem é esse? Esse decrépito, colocado com razão junto à entrada? Pois olha para fora. Onde você o arranjou? Que prazer você teve em recolher o morto de outro?” Mas ele diz: “Não me reconhece? Sou Felicião, a quem o senhor costumava trazer estatuetas. Sou filho do administrador Filosito, seu queridinho.” “Esse homem”, digo, “está completamente delirando. Então meu queridinho virou um menininho? Bem pode ser: é justamente agora que os dentes dele estão caindo.”

§ 4

Devo isto à minha propriedade nos arredores: minha velhice apareceu diante de mim para onde quer que eu me voltasse. Vamos abraçá-la e amá-la; ela é cheia de prazer, se você souber aproveitá-la. Os frutos são agradabilíssimos quando estão no fim; a infância tem seu maior encanto ao terminar; aos que se entregam ao vinho agrada a última taça, aquela que os faz afundar, que dá a última demão à embriaguez.

§ 5

Todo prazer reserva para o próprio fim o que tem de mais agradável. É agradabilíssima a idade que já declina, mas ainda não despenca. Julgo que também aquela que está na última telha tem seus prazeres. Ou então isto mesmo ocupa o lugar dos prazeres: não carecer de nenhum. Como é doce ter cansado os desejos e tê-los deixado para trás!

§ 6

“É penoso”, diz você, “ter a morte diante dos olhos.” Em primeiro lugar, ela deve estar diante dos olhos tanto do velho quanto do jovem. Pois não somos convocados segundo o censo. Em seguida, ninguém é tão velho que seja indevido esperar mais um dia. Um só dia, porém, é um degrau da vida.

A vida inteira é composta de partes e tem círculos maiores que envolvem os menores. Há um que abrange e circunda todos os outros; estende-se do nascimento ao último dia. Há outro que encerra os anos da juventude. Há um que envolve em seu perímetro toda a infância. Existe, depois, o ano, que por si só contém todas as estações cuja repetição compõe a vida. O mês é cercado por um círculo mais estreito. O dia tem o circuito mais estreito de todos, mas também ele vai do começo ao fim, do nascer ao pôr.

§ 7

Por isso Heráclito, a quem a obscuridade de sua linguagem valeu um apelido, diz: “Um só dia é igual a todos.” Cada um entendeu essa afirmação de maneira diferente. Um disse, com efeito, que um dia é igual aos outros em número de horas, e não mente; pois, se o dia é um período de vinte e quatro horas, todos os dias necessariamente são iguais entre si, porque a noite tem o que o dia perdeu. Outro diz que um só dia é igual a todos por semelhança; pois o mais longo espaço de tempo não contém nada que você também não encontre num só dia: luz e noite; e, por toda a eternidade, o dia multiplica essas alternâncias, sem produzir umas quando é mais curto e outras quando é mais longo.

§ 8

Portanto, cada dia deve ser ordenado como se fechasse a marcha e consumasse e completasse a vida.

Pacúvio, que tornara a Síria sua por usucapião, depois de celebrar as próprias exéquias com vinho e aqueles banquetes fúnebres, era carregado do jantar para o quarto enquanto, entre os aplausos dos prostitutos, cantava-se ao som da música: βεβίωται, βεβίωται.

§ 9

Não houve um só dia em que ele não celebrasse o próprio funeral. Aquilo que ele fazia com má consciência, façamos nós com boa consciência e, ao irmos dormir, digamos alegres e contentes:

Vivi e completei o percurso que a fortuna me dera.

Se Deus acrescentar o dia de amanhã, vamos recebê-lo com alegria. É felicíssimo e tranquilo possuidor de si mesmo quem espera o amanhã sem preocupação. Quem disse “vivi” levanta-se todos os dias com lucro.

§ 10

Mas já devo fechar a carta. “Então”, diz você, “ela chegará até mim sem nenhum pecúlio?” Não tenha medo; ela leva alguma coisa consigo. Por que disse alguma coisa? Leva muito. Pois o que há de mais esplêndido do que esta máxima, que entrego à carta para que ela a leve até você? “É um mal viver sob a necessidade; mas não há necessidade alguma de viver sob a necessidade.” Por que haveria? Por toda parte estão abertos muitos caminhos curtos e fáceis para a liberdade. Demos graças a Deus porque ninguém pode ser retido na vida. É permitido pisotear as próprias necessidades.

§ 11

“Foi Epicuro”, diz você, “quem disse isso. O que você tem a ver com o que é alheio?” O que é verdadeiro é meu. Perseverarei em lhe impor Epicuro, para que aqueles que juram fidelidade às palavras e avaliam não o que é dito, mas quem o disse, saibam que as melhores coisas pertencem a todos. Passe bem.

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