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Sêneca saúda seu caro Lucílio.

§ 1

Conversou comigo um amigo seu de boa índole, em quem a primeira conversa revelou quanto vigor de alma, quanto talento e até quanto progresso já havia. Deu-nos uma amostra à qual haverá de corresponder. Pois não falou depois de se preparar, mas foi apanhado de surpresa. Enquanto se recompunha, mal conseguiu vencer o acanhamento, bom sinal num jovem; tão profundamente enrubesceu. Esse rubor, pelo que suspeito, o acompanhará mesmo depois que ele ganhar firmeza e se despir de todos os vícios, mesmo quando for sábio. Pois nenhuma sabedoria elimina os defeitos naturais do corpo. Tudo o que está arraigado e é inato se atenua pela arte, não se vence.

§ 2

Até em alguns dos homens mais firmes o suor irrompe diante do público, como costuma acontecer aos que estão fatigados e sentem calor; a alguns tremem os joelhos quando estão prestes a falar; os dentes de uns batem, a língua de outros tropeça, os lábios se comprimem. Nem a disciplina nem a prática jamais eliminam essas coisas, mas a natureza exerce sua força e, por esse defeito, faz até os mais robustos se lembrarem dela.

§ 3

Sei que entre essas coisas está também o rubor, que sobrevém de repente até aos homens mais sérios. Aparece, é verdade, mais nos jovens, que têm mais calor e a testa delicada; nem por isso deixa de atingir veteranos e velhos. Há homens que nunca devem ser mais temidos do que quando coram, como se tivessem derramado todo o pudor.

§ 4

Sula era violentíssimo justamente quando o sangue lhe invadia o rosto. Nada era mais suave do que o semblante de Pompeu; ele nunca deixava de corar diante de muita gente, sobretudo nas assembleias. Lembro que Fabiano corou quando foi levado ao senado como testemunha, e esse pudor lhe caiu admiravelmente bem.

§ 5

Isso não acontece por fraqueza da mente, mas pela novidade da situação, que, ainda que não abale, afeta os inexperientes que a disposição natural do corpo torna propensos a isso. Pois, assim como alguns têm sangue bom, outros têm sangue excitável e móvel, que aflora depressa no rosto.

§ 6

Como disse, nenhuma sabedoria afasta essas coisas; do contrário, teria a natureza sob seu domínio, se apagasse todos os defeitos. Tudo o que nos foi atribuído pela condição do nascimento e pela constituição do corpo permanecerá, mesmo depois de a alma ter se ordenado muito e por longo tempo. Nada disso pode ser impedido, assim como não pode ser provocado.

§ 7

Os atores, que imitam as emoções, que exprimem o medo e a inquietação, que representam a tristeza, imitam o acanhamento por estes sinais: baixam o rosto, baixam a voz, fixam os olhos no chão e os mantêm abaixados. Não conseguem provocar em si o rubor; ele não pode ser impedido nem provocado. Contra essas coisas a sabedoria nada promete, nada consegue; elas se regem a si mesmas, vêm sem receber ordens, vão sem receber ordens.

§ 8

Já a carta pede seu fecho. Receba uma máxima, de fato útil e salutar, que quero que você grave na alma: “Devemos estimar algum homem de bem e tê-lo sempre diante dos olhos, para vivermos como se ele nos observasse e fazermos tudo como se ele nos visse.”

§ 9

Esse preceito, meu caro Lucílio, foi dado por Epicuro. Ele nos deu um guardião e um preceptor, e não sem razão. Grande parte das faltas é eliminada se uma testemunha se põe ao lado de quem está prestes a cometê-las. Tenha a alma alguém a quem reverencie, por cuja autoridade torne mais sagrada até a própria intimidade. Feliz aquele que nos corrige não apenas quando está presente, mas também quando é lembrado! Feliz quem pode reverenciar alguém de tal modo que, mesmo ao se lembrar dele, se componha e se ordene! Quem pode assim reverenciar alguém logo será digno de reverência.

§ 10

Escolha, portanto, Catão. Se ele lhe parecer rígido demais, escolha um homem de alma mais branda, Lélio. Escolha aquele cuja vida e cuja fala e cujo próprio semblante, que deixa transparecer a alma, lhe agradaram; ponha-o sempre diante de si, seja como guardião, seja como exemplo. Precisamos, insisto, de alguém que nossa própria conduta tome por medida; sem uma régua, você não corrigirá o que está torto. Passe bem.

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