Sêneca saúda seu caro Lucílio.
§ 1
É isso mesmo, não mudo de opinião: fuja da multidão, fuja dos poucos, fuja até de um só. Não há ninguém com quem eu queira que você conviva. E veja o juízo que faço de você: atrevo-me a confiá-lo a você mesmo. Crates, segundo dizem, discípulo desse mesmo Estilpão que mencionei na carta anterior, ao ver um rapazinho passeando num lugar afastado, perguntou o que fazia ali sozinho. “Converso comigo mesmo”, respondeu ele. E Crates: “Cuidado, eu lhe peço, e preste bem atenção: você está conversando com um homem mau.”
§ 2
Costumamos vigiar quem está de luto e quem está com medo, para que não façam mau uso da solidão. Não há, entre os imprudentes, quem deva ficar entregue a si mesmo; então remoem maus planos, então armam perigos futuros ou para os outros ou para si mesmos; então organizam desejos perversos; então a alma expõe tudo o que escondia por medo ou por vergonha; então afia a audácia, atiça a luxúria, instiga a ira. Enfim, o insensato perde a única vantagem da solidão: nada confidenciar a ninguém, não temer delator; ele mesmo se denuncia.
Veja, portanto, o que espero de você, ou melhor, o que garanto a mim mesmo, pois a esperança é o nome de um bem incerto: não encontro companhia que eu prefira para você à sua própria.
§ 3
Recordo com que grandeza de alma você lançou certas palavras, de quanta força estavam cheias. Logo me felicitei e disse: “Não foi da ponta dos lábios que isso saiu; essas palavras têm fundamento. Esse homem não é um da multidão: ele tem em vista a salvação.”
§ 4
Fale assim, viva assim; cuide para que nada o abata. Você pode dispensar os deuses de seus antigos votos; faça novos votos: peça uma mente sã, a boa saúde da alma e só depois a do corpo. Por que você não faria esses votos com frequência? Peça a Deus com ousadia; você não lhe pedirá nada que pertença a outro.
§ 5
Mas, para que eu envie a carta, como de costume, com algum pequeno presente, é verdadeiro o que encontrei em Atenodoro: “Saiba que você está livre de todos os desejos quando chegar ao ponto de nada pedir a Deus senão o que possa pedir às claras.” Pois agora, que loucura a dos homens! Sussurram aos deuses os votos mais vergonhosos; se alguém aproximar o ouvido, eles se calarão. E o que não querem que um homem saiba, contam a Deus. Veja, portanto, se não é salutar este preceito: viva com os homens como se Deus estivesse vendo; fale com Deus como se os homens estivessem ouvindo. Passe bem.