Sêneca saúda seu caro Lucílio.
§ 1
Você deseja saber se Epicuro tem razão ao censurar, numa de suas cartas, os que dizem que o sábio basta a si mesmo e que por isso não precisa de amigo. É isso que Epicuro objeta a Estilpão e àqueles para quem o sumo bem pareceu ser uma alma impassível.
§ 2
Cairemos em ambiguidade se quisermos exprimir depressa a ἀπάθεια com uma só palavra e dizer “impaciência”. Pois pode-se entender o contrário do que queremos dizer. Queremos designar quem rejeita toda sensação de mal; entenderão que se trata de quem não consegue suportar mal nenhum. Veja, portanto, se não é melhor dizer “alma invulnerável” ou “alma posta fora de todo padecimento”.
§ 3
Eis a diferença entre nós e eles: o nosso sábio vence todo incômodo, mas o sente; o deles nem sequer o sente. Isto é comum a nós e a eles: o sábio basta a si mesmo. Mas, ainda assim, ele quer ter um amigo e um vizinho e um companheiro, embora se baste.
§ 4
Veja até que ponto ele basta a si mesmo: às vezes se contenta com uma parte de si. Se uma doença ou um inimigo lhe cortar a mão, se algum acidente lhe arrancar um olho ou os dois, o que restar dele lhe bastará, e com o corpo diminuído e amputado ele será tão alegre quanto era com o corpo inteiro. Mas, se essas partes lhe faltam, ele não sente falta delas; prefere que não faltem.
§ 5
Assim, o sábio basta a si mesmo, não no sentido de que queira ficar sem amigo, mas de que possa. E o “possa” que digo significa isto: ele suporta a perda com ânimo sereno.
Sem amigo, na verdade, ele nunca ficará. Depende dele a rapidez com que o repõe. Assim como Fídias, se perder uma estátua, logo fará outra, assim este artífice de amizades porá outro no lugar do que perdeu.
§ 6
Você pergunta como ele fará um amigo depressa; eu direi, se ficar combinado entre nós que eu já lhe pague o que devo e, no que toca a esta carta, fiquemos quites. Diz Hécaton: “Vou lhe mostrar uma poção de amor sem medicamento, sem erva, sem o encantamento de nenhuma feiticeira: se quer ser amado, ame.” E não é só o cultivo de uma amizade antiga e segura que traz grande prazer, mas também o começo e a conquista de uma nova.
§ 7
A diferença que há entre o agricultor que colhe e o que semeia é a mesma que há entre quem já conquistou um amigo e quem o está conquistando. O filósofo Átalo costumava dizer que é mais agradável fazer um amigo do que tê-lo, assim como para o artista é mais agradável pintar do que ter pintado. O cuidado que dedica à obra lhe traz enorme deleite no próprio trabalho. Não se deleita tanto quem já retirou a mão da obra acabada. Agora ele desfruta do fruto de sua arte; da própria arte desfrutava enquanto pintava. A adolescência dos filhos é mais proveitosa, mas a infância é mais doce.
§ 8
Voltemos agora ao nosso tema. O sábio, ainda que baste a si mesmo, quer ter um amigo, se não por outra razão, para exercitar a amizade, para que virtude tão grande não fique ociosa, não para aquilo que Epicuro dizia nessa mesma carta, “para ter quem se sente à sua cabeceira na doença, quem o socorra quando é lançado na prisão ou está sem recursos”, mas para ter alguém a cuja cabeceira ele mesmo se sente quando esse amigo estiver doente, alguém que ele mesmo liberte quando a guarda inimiga o cercar. Quem olha para o próprio interesse e por isso busca a amizade pensa mal. Como começou, assim terminará: conquistou um amigo para lhe trazer ajuda contra as correntes; assim que a corrente tilintar, ele irá embora.
§ 9
São essas as amizades que o povo chama de amizades de ocasião: quem foi escolhido por utilidade agradará enquanto for útil. É por isso que uma multidão de amigos cerca os prósperos; ao redor dos arruinados há solidão, e os amigos fogem justamente de onde são postos à prova. É por isso que há tantos exemplos abomináveis de uns que abandonam por medo e de outros que traem por medo. É inevitável que os começos e os fins correspondam entre si. Quem começou a ser amigo porque convém também deixará de sê-lo porque convém. Algum preço agradará mais do que a amizade, se nela agrada alguma coisa além dela mesma.
§ 10
Para que conquisto um amigo? Para ter por quem possa morrer, para ter a quem seguir no exílio, para ter alguém por quem me interponha à morte e me sacrifique. Isso que você descreve é negócio, não amizade: aproxima-se em busca de vantagem, olha para o que vai obter.
§ 11
Sem dúvida a paixão dos amantes tem algo de semelhante à amizade; você poderia dizer que é uma amizade insana. Ora, alguém ama por lucro? Por ambição ou por glória? O amor, por si mesmo, sem se importar com nada mais, inflama as almas de desejo pela beleza, não sem esperança de afeto recíproco. E então? De uma causa mais honrosa nasce um afeto vergonhoso?
§ 12
“Não se trata agora”, diz você, “de saber se a amizade deve ser buscada por si mesma.” Pelo contrário: nada precisa ser provado mais do que isso. Pois, se ela deve ser buscada por si mesma, pode aproximar-se dela quem basta a si mesmo. “Como, então, ele se aproxima dela?” Como de uma coisa belíssima, sem ser fisgado pelo lucro nem apavorado pelas mudanças da fortuna. Rouba da amizade a sua majestade quem a busca pelas vantagens que pode trazer.
§ 13
Basta a si mesmo o sábio. Isto, meu caro Lucílio, a maioria interpreta mal: afasta o sábio de tudo e o encerra dentro da própria pele. Mas é preciso distinguir o que essa expressão promete e até que ponto: o sábio basta a si mesmo para viver feliz, não para viver. Pois, para viver, ele necessita de muitas coisas; para viver feliz, apenas de uma alma sã, erguida e que despreza a fortuna.
§ 14
Quero lhe mostrar também a distinção de Crisipo. Ele diz que o sábio não carece de nada e, no entanto, necessita de muitas coisas. “Ao insensato, pelo contrário, nada é necessário, pois não sabe usar coisa alguma, mas carece de tudo.” O sábio necessita das mãos e dos olhos e de muitas coisas necessárias ao uso diário; não carece de nada. Pois carecer é estar sujeito à necessidade; o sábio não está sujeito a ela.
§ 15
Portanto, embora baste a si mesmo, ele necessita de amigos. Deseja ter o maior número possível deles, não para viver feliz; pois viverá feliz mesmo sem amigos. O sumo bem não procura instrumentos fora de si. Cultiva-se em casa; provém inteiramente de si mesmo. Começa a ficar sujeito à fortuna se procura fora alguma parte de si.
§ 16
“Mas como será a vida do sábio se for deixado sem amigos, lançado na prisão, ou abandonado entre algum povo estrangeiro, ou retido numa longa viagem por mar, ou lançado numa praia deserta?” Será como a de Júpiter quando, dissolvido o mundo e fundidos os deuses num só, com a natureza em breve repouso, ele descansa em si mesmo, entregue aos próprios pensamentos. Algo assim faz o sábio: recolhe-se em si, está consigo.
§ 17
Enquanto lhe é permitido ordenar seus assuntos segundo a própria vontade, ele basta a si mesmo e casa-se; basta a si mesmo e cria filhos; basta a si mesmo e, no entanto, não viveria se tivesse de viver sem gente. O que o leva à amizade não é nenhum interesse próprio, mas um estímulo natural. Pois, assim como temos um gosto inato por outras coisas, assim também pela amizade. Assim como há a aversão à solidão e o desejo de companhia, assim como a natureza aproxima o homem do homem, assim também há na amizade um estímulo que nos leva a desejá-la.
§ 18
Contudo, embora ame muitíssimo os amigos, embora os iguale a si mesmo e muitas vezes os prefira a si, ele limitará todo bem ao seu interior e dirá o que disse aquele Estilpão, o Estilpão que a carta de Epicuro ataca; pois ele, tomada a pátria, perdidos os filhos, perdida a esposa, quando saía sozinho e, no entanto, feliz do incêndio geral, respondeu a Demétrio, que pela destruição de cidades recebeu o cognome de Poliorcetes e lhe perguntava se tinha perdido alguma coisa: “Todos os meus bens estão comigo.”
§ 19
Eis um homem forte e valente! Venceu a própria vitória de seu inimigo. “Nada perdi”, disse ele; obrigou o outro a duvidar se tinha vencido. “Tudo o que é meu está comigo”: isso é exatamente não considerar bem nada que possa ser arrancado.
Admiramos certos animais que atravessam o meio das chamas sem dano ao corpo; quanto mais admirável este homem, que escapou ileso e sem perdas através do ferro, das ruínas e das chamas! Vê o quanto é mais fácil vencer um povo inteiro do que um só homem? Essa frase ele tem em comum com o estoico. Também este carrega seus bens intactos através de cidades incendiadas. Pois basta a si mesmo. É com esse limite que ele define sua felicidade.
§ 20
Não pense que só nós proferimos palavras nobres; o próprio Epicuro, que censura Estilpão, também disse algo semelhante: aceite de bom grado essa frase, ainda que eu já tenha quitado o dia de hoje. “Se alguém”, diz ele, “não considera seus bens muito abundantes, ainda que seja senhor do mundo inteiro, é infeliz.” Ou, se lhe parece melhor expresso deste modo — pois o que importa é servirmos não às palavras, mas ao que elas significam —: “É infeliz quem não se julga felicíssimo, ainda que governe o mundo.”
§ 21
Para que saiba que esses pensamentos são comuns, ditados, é claro, pela natureza, você os encontrará num poeta cômico:
Não é feliz quem não se julga feliz.
Pois que importa qual seja a sua situação, se a você ela parece má?
§ 22
“E então?”, diz você. “Se aquele que enriqueceu vergonhosamente, ou aquele senhor de muitos, mas escravo de mais ainda, disser que é feliz, ele se tornará feliz por sua própria opinião?” Não importa o que ele diz, mas o que sente; e não o que sente num só dia, mas o que sente continuamente. Não há, porém, motivo para temer que coisa tão grande chegue a um indigno: a ninguém, senão ao sábio, agrada o que é seu. Toda insensatez sofre de desgosto de si mesma. Passe bem.