Sêneca saúda seu caro Lucílio.
§ 1
“Você me manda evitar a multidão”, diz você, “retirar-me e contentar-me com a minha consciência? Onde estão aqueles preceitos de vocês, que ordenam morrer em plena ação?” Quanto ao que pareço lhe aconselhar por ora, escondi-me e fechei as portas para poder ser útil a um número maior de pessoas. Nenhum dia meu se passa em ócio. Reivindico para os estudos parte das noites. Não me entrego ao sono, mas sucumbo a ele, e mantenho no trabalho os olhos cansados pela vigília e já se fechando.
§ 2
Retirei-me não só dos homens, mas dos negócios, e sobretudo dos meus; cuido dos negócios da posteridade; para ela escrevo algumas coisas que possam ser úteis. Confio à escrita advertências salutares, como fórmulas de remédios úteis, depois de experimentar sua eficácia em minhas próprias úlceras, que, mesmo não tendo sarado por completo, pararam de se alastrar.
§ 3
O caminho reto, que conheci tarde e cansado de errar, mostro aos outros. Grito: “Evitem tudo o que agrada à maioria, o que o acaso distribui. Diante de todo bem fortuito, detenham-se, desconfiados e temerosos; tanto a fera quanto o peixe se deixam enganar por alguma esperança que os atrai. Vocês acham que são presentes da fortuna? São ciladas. Quem de vocês quiser levar uma vida segura evite, o máximo que puder, esses benefícios cobertos de visgo, nos quais, infelicíssimos, nos enganamos também nisto: pensamos que possuímos; estamos presos.”
§ 4
“Essa corrida leva ao precipício. O desfecho dessa vida elevada é cair. Além disso, quando a prosperidade começa a nos desviar do rumo, não é sequer possível resistir, nem ao menos cair de pé ou de uma vez só; a fortuna não derruba, mas vira de cabeça para baixo e esmaga.”
§ 5
“Mantenham, portanto, esta forma de vida sã e salutar: concedam ao corpo só o que basta para a boa saúde. Ele deve ser tratado com mais dureza, para que não desobedeça à alma. Que a comida aplaque a fome, a bebida apague a sede, a roupa afaste o frio, a casa seja proteção contra o que ameaça o corpo. Se ela foi erguida com torrões de terra ou com pedra de várias cores vinda de terra estrangeira, não faz diferença; saibam que o homem se abriga tão bem sob a palha quanto sob o ouro. Desprezem tudo o que o trabalho supérfluo põe como ornamento e enfeite. Pensem que nada é admirável além da alma; para ela, quando é grande, nada é grande.”
§ 6
Se falo disso comigo mesmo, se falo disso com a posteridade, não lhe parece que sou mais útil do que quando descia como advogado para uma audiência, ou marcava com meu anel as tábuas de um testamento, ou emprestava no senado minha voz e minha mão a um candidato? Acredite em mim: os que parecem nada fazer fazem coisas maiores; tratam ao mesmo tempo das coisas humanas e das divinas.
§ 7
Mas já é hora de terminar e de pagar algo por esta carta, como estabeleci. Isso não sairá do que é meu: ainda estamos folheando Epicuro, de quem li hoje esta frase: “É preciso servir à filosofia para que lhe caiba a verdadeira liberdade.” Quem se submeteu e se entregou a ela não precisa esperar até outro dia: é alforriado na hora. Pois o próprio servir à filosofia é a liberdade.
§ 8
Pode ser que você me pergunte por que cito tantos belos ditos de Epicuro em vez dos de nossos filósofos. Mas que razão você tem para achar que essas frases são de Epicuro, e não patrimônio de todos? Quantos poetas dizem coisas que os filósofos disseram ou deveriam dizer! Não vou falar dos trágicos nem de nossas comédias togadas. Pois também estas têm algo de severidade e ficam a meio caminho entre as comédias e as tragédias. Quantos versos eloquentíssimos jazem entre os mimos! Quantas frases de Publílio deveriam ser ditas não por atores descalços, mas por atores de coturno!
§ 9
Citarei um verso dele que diz respeito à filosofia e ao tema que há pouco tínhamos em mãos, no qual ele nega que as coisas fortuitas devam ser contadas entre o que é nosso:
É alheio tudo o que nos vem em resposta a um desejo.
§ 10
Lembro que você expressou este mesmo pensamento de modo bem melhor e mais conciso:
Não é teu o que a fortuna fez teu.
E não deixarei passar este outro dito seu, ainda melhor:
O bem que pôde ser dado pode ser tirado.
Isto não conto como pagamento: dei-lhe do que é seu. Passe bem.