Sêneca saúda seu caro Lucílio.
§ 1
Você pergunta o que deve julgar mais importante evitar? A multidão. Você ainda não pode se expor a ela com segurança. Eu, pelo menos, confessarei minha fraqueza: nunca trago de volta os costumes que levei comigo. Algo do que pus em ordem se desarranja; algo do que expulsei retorna. O que acontece aos doentes que uma longa fraqueza debilitou a tal ponto que não podem ser levados a lugar nenhum sem dano, isso acontece a nós, cujas almas se recuperam de uma longa doença.
§ 2
A convivência com muitos é nociva; não há quem não nos recomende algum vício, ou o imprima em nós, ou o faça aderir a nós sem que percebamos. E, certamente, quanto maior é a multidão a que nos misturamos, maior é o perigo.
Nada, porém, é tão danoso aos bons costumes quanto ficar sentado em algum espetáculo. Pois é então que, pelo prazer, os vícios se insinuam mais facilmente.
§ 3
O que você acha que estou dizendo? Volto mais avarento, mais ambicioso, mais dado ao luxo, e até mais cruel e mais desumano, porque estive entre os homens. Por acaso, fui parar no espetáculo do meio-dia, esperando jogos, piadas e alguma distração em que os olhos dos homens descansassem do sangue humano; é o contrário. Todos os combates anteriores foram misericórdia. Agora, deixadas de lado as brincadeiras, são puros homicídios. Não têm com que se proteger; expostos ao golpe com o corpo inteiro, nunca golpeiam em vão.
§ 4
A maioria prefere isso aos combates comuns e aos pedidos pelo público. E por que não prefeririam? Nenhum elmo, nenhum escudo repele o ferro. Para que proteções? Para que técnica? Tudo isso são adiamentos da morte. De manhã, os homens são lançados aos leões e aos ursos; ao meio-dia, aos seus próprios espectadores. Mandam lançar os que mataram aos que os matarão e reservam o vencedor para outra matança. O fim dos combatentes é a morte; a coisa se resolve a ferro e fogo. É isso que se faz enquanto a arena está vazia.
§ 5
“Mas alguém cometeu um assalto, matou um homem.” E daí? Porque matou, ele mereceu sofrer isso; mas você, infeliz, que fez para merecer assistir a isso? “Mata, açoita, queima! Por que ele se lança ao ferro com tanto medo? Por que mata com tão pouca coragem? Por que morre com tão pouca vontade? Que o façam avançar a chicotadas para ser ferido, que recebam os golpes um do outro com o peito nu e exposto!” O espetáculo é interrompido: “enquanto isso, que se degolem homens, para que não se fique sem fazer nada.”
Ora, nem isto vocês entendem: que os maus exemplos recaem sobre quem os dá? Deem graças aos deuses imortais por estarem ensinando a ser cruel a quem não pode aprender.
§ 6
É preciso afastar do povo a alma ainda frágil e pouco firme no que é reto; é fácil passar para o lado da maioria. Uma multidão de hábitos diferentes poderia ter arrancado de Sócrates, de Catão e de Lélio seus costumes; por isso, nenhum de nós, que ainda estamos formando o caráter, pode suportar o ímpeto dos vícios que chegam com tão grande comitiva.
§ 7
Um único exemplo de dissipação ou de avareza faz muito mal; um companheiro de mesa dado ao luxo aos poucos nos enfraquece e amolece; um vizinho rico atiça a cobiça; um companheiro maldoso esfrega sua ferrugem em outra pessoa, por mais inocente e simples que ela seja. O que você acha que acontece a esses costumes, contra os quais se lançou um ataque em público? É inevitável: ou você imita, ou odeia.
§ 8
Mas ambas as coisas devem ser evitadas; não se torne semelhante aos maus porque são muitos, nem inimigo de muitos porque são diferentes. Recolha-se em si mesmo o quanto puder. Conviva com os que vão torná-lo melhor. Acolha aqueles que você pode tornar melhores. Isso é recíproco, e os homens, enquanto ensinam, aprendem.
§ 9
Não há razão para que o desejo de glória pela exibição do seu talento o leve a público, a querer fazer recitações ou debates diante dessa gente; coisa que eu gostaria que você fizesse, se tivesse mercadoria adequada para esse povo; não há ninguém capaz de entendê-lo. Talvez apareça alguém, um ou outro, e mesmo esse você terá de formar e instruir para que possa entendê-lo. “Para quem, então, aprendi essas coisas?” Não há razão para temer que tenha trabalhado em vão; você aprendeu para si mesmo.
§ 10
Mas, para que hoje eu não tenha aprendido só para mim, vou compartilhar com você três ditos admiráveis que me ocorreram, mais ou menos no mesmo sentido; com um deles esta carta pagará a dívida; os outros dois, receba-os como adiantamento. Demócrito diz: “Para mim, um só vale por um povo, e um povo por um só.”
§ 11
Bem disse também aquele outro, seja quem for, pois há dúvida sobre o autor, quando lhe perguntaram a que visava tanto cuidado com uma arte que chegaria a pouquíssimos: “Para mim bastam poucos”, respondeu, “basta um, basta nenhum.” Admiravelmente disse Epicuro este terceiro dito, ao escrever a um dos companheiros de seus estudos: “Isto”, diz ele, “eu escrevo não para muitos, mas para você; pois somos, um para o outro, um teatro suficientemente grande.”
§ 12
Essas coisas, meu caro Lucílio, devem ser guardadas na alma, para que você despreze o prazer que vem da aprovação da maioria. Muitos o elogiam. Você tem algum motivo para se satisfazer consigo mesmo, se é alguém que muitos conseguem entender? Que suas qualidades se voltem para dentro. Passe bem.