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Sêneca saúda seu caro Lucílio.

§ 1

Percebo, Lucílio, que não estou apenas sendo corrigido, mas transfigurado. E não garanto, nem espero, que já não reste em mim nada que deva ser mudado. Como não haveria em mim muitas coisas que precisam ser contidas, atenuadas, elevadas? E isto mesmo é prova de que a alma se tornou melhor: ela vê os próprios vícios, que até então ignorava. Felicitamos certos doentes quando eles mesmos percebem que estão doentes.

§ 2

Eu desejaria, portanto, partilhar com você uma mudança tão súbita em mim; então começaria a ter uma confiança mais segura em nossa amizade — naquela verdadeira, que nem a esperança, nem o medo, nem o cuidado com o próprio interesse rompem; naquela com a qual os homens morrem, pela qual morrem.

§ 3

Posso lhe apontar muitos a quem faltou não um amigo, mas a amizade. Isso não pode acontecer quando uma mesma vontade atrai as almas para a comunhão no desejo do que é honesto. E como poderia faltar a amizade? Pois sabem que têm tudo em comum, e mais ainda as adversidades.

Você não é capaz de imaginar quanto proveito vejo que cada dia me traz.

§ 4

“Mande”, diz você, “também para nós essas coisas que você experimentou e achou tão eficazes.” Eu, de fato, desejo verter tudo em você, e me alegro em aprender alguma coisa justamente para ensinar. E nada me dará prazer, por mais excelente e salutar que seja, se eu for o único a conhecê-lo. Se a sabedoria me fosse dada com esta condição — mantê-la trancada e não a comunicar —, eu a recusaria. Não há bem cuja posse seja agradável sem um companheiro.

§ 5

Assim, mandarei os próprios livros e, para que você não gaste muito esforço buscando aqui e ali o que pode ser útil, marcarei as passagens que aprovo e admiro, para que vá direto a elas. Contudo, a viva voz e o convívio lhe serão mais úteis do que a palavra escrita. Você precisa vir ver de perto: primeiro, porque os homens acreditam mais nos olhos do que nos ouvidos; depois, porque é longo o caminho pelos preceitos; curto e eficaz, pelos exemplos.

§ 6

Cleantes não teria se tornado semelhante a Zenão se apenas o tivesse ouvido; participou da vida dele, conheceu sua intimidade, observou se ele vivia de acordo com a própria regra. Platão, Aristóteles e toda a multidão de sábios que haveria de seguir rumos diversos tiraram mais da conduta de Sócrates do que de suas palavras. Quanto a Metrodoro, Hermarco e Polieno, não foi a escola de Epicuro que os fez grandes homens, mas a convivência com ele. E não o convido a vir apenas para que você progrida, mas para que seja útil; pois muito contribuiremos um para o outro.

§ 7

Enquanto isso, já que lhe devo a pequena paga de cada dia, direi o que hoje me agradou em Hécaton. “Você pergunta”, diz ele, “que progresso fiz? Comecei a ser amigo de mim mesmo.” Progrediu muito: nunca estará sozinho. Saiba que um homem assim é amigo de todos. Passe bem.

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