Sêneca saúda seu caro Lucílio.
§ 1
Aprovo que você estude com perseverança e, deixando tudo o mais, se dedique a uma só coisa — tornar-se cada dia melhor —, e me alegro com isso; não apenas o exorto a perseverar, mas também lhe peço. Advirto-o, porém, de uma coisa: não faça nada que chame a atenção em seu traje ou em seu modo de vida, à maneira dos que desejam não progredir, mas ser notados.
§ 2
Evite as roupas grosseiras, os cabelos por cortar, a barba descuidada, o ódio declarado à prataria, a cama posta no chão e tudo o mais que a ambição — pois é disso que se trata — persegue por um caminho às avessas. Já o simples nome de filosofia atrai bastante hostilidade, mesmo quando a praticamos com modéstia; que será se começarmos a nos afastar dos costumes dos homens? Por dentro, seja tudo diferente; por fora, que nossa aparência combine com o povo.
§ 3
Que a toga não brilhe, mas também não esteja suja. Não tenhamos prataria com incrustações de ouro maciço, mas não pensemos que é sinal de frugalidade não ter ouro nem prata. Cuidemos de seguir uma vida melhor que a da maioria, não uma vida contrária; do contrário, afugentamos e afastamos de nós aqueles que queremos corrigir. Conseguimos também que não queiram imitar nada do que é nosso, por temerem que tudo tenha de ser imitado.
§ 4
A filosofia promete, antes de tudo, isto: senso de comunidade, humanidade e sociabilidade. É desse compromisso que a excentricidade nos afastará. Cuidemos para que essas coisas com que queremos conquistar admiração não sejam ridículas e odiosas. Nosso propósito, sem dúvida, é viver de acordo com a natureza; e isto é contra a natureza: torturar o próprio corpo, odiar um asseio simples, buscar a sujeira e consumir alimentos não apenas baratos, mas repugnantes e grosseiros.
§ 5
Assim como desejar coisas refinadas é próprio do luxo, fugir das comuns e baratas é próprio da loucura. A filosofia exige frugalidade, não castigo; e a frugalidade não precisa ser desleixada. Esta é a medida que me agrada: que a vida se equilibre entre os bons costumes e os costumes comuns; que todos admirem nossa vida, mas também a reconheçam.
§ 6
“E então? Faremos as mesmas coisas que os outros? Não haverá diferença alguma entre nós e eles?” Enorme. Quem olhar mais de perto deve perceber que somos diferentes da maioria. Quem entrar em nossa casa deve admirar mais a nós do que a nossa mobília. Grande é aquele que usa louça de barro como se fosse prata. E não é menor aquele que usa prata como se fosse louça de barro. É sinal de uma alma fraca não conseguir suportar as riquezas.
§ 7
Mas, para compartilhar com você também o pequeno lucro deste dia: encontrei em nosso Hécaton que pôr fim aos desejos também ajuda a curar o medo. “Você deixará de temer”, diz ele, “se deixar de esperar.” Você dirá: “Como é que coisas tão diversas andam juntas?” É assim, meu caro Lucílio: embora pareçam discordar, estão unidas. Assim como uma mesma corrente prende o prisioneiro e o soldado, assim estas coisas, tão diferentes, caminham juntas: atrás da esperança vem o medo.
§ 8
E não me admiro de que seja assim: ambos são próprios de uma alma em suspenso, ambos de uma alma inquieta pela expectativa do futuro. E a maior causa de ambos é que não nos ajustamos ao presente, mas mandamos nossos pensamentos adiante, para longe. Assim, a previdência, o maior bem da condição humana, converteu-se em mal.
§ 9
As feras fogem dos perigos que veem; depois de escapar, ficam tranquilas; nós nos atormentamos com o que está por vir e com o que já passou. Muitos de nossos bens nos prejudicam: a memória traz de volta o tormento do medo, a previdência o antecipa. Ninguém é infeliz apenas pelo presente. Passe bem.