O anjo caiu, a alma do homem caiu, mostrando assim em que profundas trevas teria caído o abismo que compreendia todas as criaturas espirituais, se não tivesses dito desde o começo: “Faça-se a luz!” — se a luz não se tivesse feito, se todas as inteligências de tua cidade celeste não se tivessem unido e sujeitado a ti, se não tivessem repousado em teu Espírito, que paira, sem nunca mudar, por sobre as criaturas mutáveis. De outro modo, ainda o mesmo céu do céu não seria, em si mesmo, mais que abismo de trevas, mas agora é luz no Senhor. Nessa lamentável inquietação dos espíritos decaídos, que, despojados da veste de tua luz, não fazem ver senão trevas, descobres claramente a grandeza de tua criatura racional, pois ela não tem necessidade senão de ti para encontrar felicidade e repouso — de onde se segue que ela não pode bastar-se a si própria. Porque tu, nosso Deus, iluminarás nossas trevas. De ti vêm nossos vestidos, e nossas trevas serão como o meio-dia. Dá-te a mim, meu Deus, restitui-te a mim: eis que te amo; e, se é pouco, que eu te ame com mais força. Não posso medir, não posso saber o que falta a meu amor para que seja suficiente, para que minha vida se lance em teus abraços e não se desvie deles até se esconder no segredo de teu rosto. Só isto sei: que me sinto mal longe de ti, não somente fora de mim, mas até em mim mesmo; e que toda a abundância de bens que não é meu Deus não é para mim mais que miséria.
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