Mas aquele que compreende a palavra: “No princípio criou Deus…” como se ela quisesse dizer: “Primeiramente Deus criou…” não pode entender por céu e terra, se quer permanecer na verdade, senão a matéria do céu e da terra, isto é, da Criação universal, tanto dos espíritos como dos corpos. Porque, se quer entender por isso um Universo já inteiramente formado, seríamos obrigados a perguntar-lhe: “Mas se Deus criou isso antes, que criou depois?” Depois de ter criado tudo, não encontrará mais nada para criar e, quer queira, quer não, alguém lhe perguntará: “Como é possível dizer-se que Deus criou isso primeiro, se nada criou depois?” Se ele pretende dizer que Deus criou primeiro a matéria informe e depois lhe deu forma, já não se trata de tese absurda, desde que saiba distinguir a prioridade na eternidade, no tempo, na escolha, na origem. Na eternidade: como Deus, antes de todas as coisas; no tempo: como a flor precede o fruto; na escolha: como o fruto vale mais do que a flor; na origem: como o som precede o canto. Dessas quatro prioridades, a primeira e a última são muito difíceis de compreender, ao passo que as duas do meio são facílimas de entender. É uma intuição rara e excessivamente penosa a que nos mostra tua eternidade criando, e ao mesmo tempo conservando-se imutável, as coisas mutáveis, e, assim, precedendo-as. E é necessária uma inteligência aguda para se compreender, sem grande esforço, como o som precede o canto, porque o canto é som formado, e uma coisa pode muito bem existir sem forma, mas o que não existe não pode ser formado. Assim a matéria é anterior ao que dela se forma, mas não porque seja ela a que produz, mas porque é objeto da ação, nem tampouco porque seja anterior no tempo. Porque não emitimos, em um primeiro momento, sons informes e sem canto, que, em momento posterior, ajustaríamos e moldaríamos na forma de canto, como se faz com a madeira e a prata com que se fabrica um cofre ou um vaso. Com efeito, essas matérias precedem no tempo os objetos que delas são feitos. Mas com o canto não se dá o mesmo. Quando se canta ouve-se o som do canto: não soa primeiro informe, para depois ser formado em canto. Logo que ele soa, o som se desvanece, e não deixa depois de si nada que se possa coordenar com arte. Por conseguinte, o canto é formado de sons: o som é sua matéria, e, para se transformar em canto, recebe uma forma. Por isso, como dizia, o som, que é a matéria, é anterior ao canto, que é a forma. Não é a prioridade de um poder criador, porque o som não é o artífice do canto, mas é apenas posto pelo corpo à disposição da alma do cantor, para que dele faça um canto. Não se trata de prioridade temporal: o som é produzido ao mesmo tempo que o canto. Não se trata de prioridade de escolha: o som não vale mais do que o canto, pois o canto não é apenas som, mas som dotado de beleza. Trata-se apenas de uma prioridade de origem, porque não é o canto que se forma para ser som, mas o som que se forma para ser canto. Compreenda quem puder, por esse exemplo, que a matéria das coisas foi criada antes, e chamada de céu e terra, porque dela foram tirados o céu e a terra. Não foi criada antes na ordem do tempo, porque o tempo só tem início com a forma das coisas; ora, a matéria era informe, e não se mostrou no tempo senão juntamente com o tempo. Contudo, dela não se pode falar senão como se tivesse prioridade temporal, embora ocupe o último lugar na escala de valores (porque o que tem forma é evidentemente superior ao que não tem forma), e seja precedida pela eternidade do Criador, para que houvesse, vindo do nada, aquilo de que alguma coisa fosse feita.
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