Assim como uma fonte, fechada em pequeno reservatório, é mais abundante e, pelos diversos regatos que alimenta, banha espaços muito mais amplos que qualquer um desses regatos que deslizam através de muitas regiões, assim a narração do ministro de tua palavra, que deveria servir a tantos intérpretes, faz brotar de seu estilo sóbrio e simples uma torrente de límpida verdade, de que cada um tira para si a verdade que pode, para depois desenvolvê-la em largos rodeios de palavras. Alguns há que, lendo ou entendendo essas palavras, imaginam a Deus como homem ou como massa material dotada de imenso poder, e que, por decisão nova e repentina, daria nascimento fora dela, e como que à distância, ao céu e à terra, esses dois grandes corpos, um superior, outro inferior, onde estão contidas todas as coisas. Quando ouvem dizer: “Deus disse: faça-se tal coisa! E tal coisa foi feita”, imaginam que se trata de palavras que começam e terminam, que soam no tempo e que passam, pois que, apenas passadas, começa a existir o que se ordenou que existisse. Todas as suas demais concepções ressentem-se do mesmo hábito de pensar de modo carnal. Nisto são como crianças, sem vida espiritual; enquanto essa linguagem humilde sustentar sua fraqueza como o seio de uma mãe, sua salvação não deixa de se edificar pela fé, que lhes faz considerar como certo que Deus criou todas as realidades, cuja admirável variedade impressiona seus sentidos. Mas se alguém, desprezando como vil essa linguagem, em sua orgulhosa debilidade, se lança para fora do ninho onde é alimentado, então cairá miseravelmente. Senhor Deus, tem piedade dele! Que os transeuntes não o pisem, passarinho implume; manda teu anjo para que o reponha no ninho, a fim de que viva até se tornar capaz de voar!
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