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Insiste, ó meu espírito, e presta grande atenção: Deus é nosso apoio. Ele é que nos criou, e não nós. Dirige tua atenção para o lado onde desponta a aurora da verdade. Eis, por exemplo, que uma voz corpórea começa a ressoar, e soa, e continua a soar, e deixa de soar; faz-se silêncio, a voz torna-se passada e deixa de existir. Antes de se fazer ouvir era futura, e não podia ser medida, pois ainda não existia; e agora também não o pode ser, porque já não existe mais. Só poderíamos medi-la quando ressoava, porque então havia o que medir. Mas mesmo então não era estável, porque vinha e passava. E não seria esta a razão pela qual poderia ser mais bem medida? Porque, enquanto passava, estendia-se por um espaço de tempo que a tornava capaz de ser medida, porque o presente não tem espaço algum. Admitamos que ela pôde então ser medida; eis, suponho eu, uma outra voz que começa a se fazer ouvir; ela vibra de modo contínuo, sem nenhuma interrupção. Meçamo-la enquanto vibra, porque no momento em que deixar de vibrar será passada e já não poderá ser medida. Meçamo-la, então, e avaliemos sua duração. Mas ela vibra ainda, e não pode ser medida senão depois do início do fenômeno, quando começa a vibrar, até seu fim, quando deixa de vibrar. Porque é precisamente o intervalo que separa um começo de um fim que nós medimos. Essa a razão pela qual uma voz, que ainda não terminou de ressoar, escapa à medida: impossível dizer-se quanto ela é longa ou breve, se é igual a uma outra, simples ou dupla, ou se tem a respeito dessa outra alguma relação mais. Mas quando terminar de soar, deixará de existir. Como, então, poderemos medi-la? E, contudo, medimos o tempo; mas não o tempo que ainda não existe, nem o que já deixou de existir, nem o que não se estende por demora alguma, nem o que não tem limites. Não é, portanto, nem o futuro, nem o passado, nem o presente, nem o tempo que passa que medimos: e, contudo, medimos o tempo.

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