Ouvi uma pessoa culta dizer que o tempo é propriamente o movimento do Sol, da Lua e dos astros. Não sou dessa opinião. Por que, então, não há de ser o tempo o movimento de todos os corpos? Se os astros do céu parassem, e a roda de um oleiro continuasse a rodar, acaso não haveria mais tempo para medir as voltas, para nos permitir dizer que elas se completavam a intervalos iguais, ou ora mais rapidamente, ora mais lentamente, e que umas demoravam mais e outras, menos? E, dizendo isto, não estaríamos falando no tempo? Não haveria em nossas palavras sílabas longas e breves, porque umas ressoam por mais tempo e outras por menos tempo? Meu Deus, concede aos homens que percebam, que conheçam em um exemplo de pequena importância o que as coisas grandes e pequenas têm de comum. Há astros e luminares celestes que servem de sinais e marcam as estações, os anos e os dias. Isso é verdade, e eu jamais diria que a volta realizada por essa pequena roda de madeira constitui o dia; mas tampouco poderia aquele homem douto dizer que, por isso, a volta da roda não é tempo.
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