De qualquer modo que se produza esse misterioso pressentimento do futuro, o certo é que não se pode ver senão o que existe. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Quando se diz que se vê o futuro, o que se vê não são os acontecimentos futuros, que ainda não existem, porque são futuros, mas suas causas ou talvez os sinais que os anunciam, causas e sinais que já existem; estes não são futuros, mas presentes aos que os veem, e é graças a eles que o futuro é concebido pelo espírito e predito. Esses conceitos já existem, e os que predizem o futuro veem-nos presentes em si mesmos. Gostaria de apelar para a eloquência de um exemplo tomado entre uma multidão de outros. Contemplo a aurora, e anuncio o nascimento do Sol. O que tenho sob os olhos é presente, o que anuncio é futuro: não o Sol, que já existe, mas seu nascimento, que ainda não se deu. Contudo, se eu não tivesse uma imagem mental desse nascimento, como agora quando falo dele, ser-me-ia impossível predizê-lo. Mas essa aurora que vejo no céu não é o nascimento do Sol, embora o preceda; nem o é tampouco a imagem que levo em meu espírito: mas essas duas coisas estão presentes, eu as vejo, e assim posso dizer com antecipação o que vai acontecer. O futuro, portanto, ainda não existe; se ainda não existe, não existe, e se não existe não pode ser visto de modo algum, mas pode ser predito de acordo com os sinais presentes, que já existem e podem ser vistos.
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