Permite-me, Senhor, que eu leve adiante minhas investigações, tu que és minha esperança; faze com que meu esforço não seja perturbado. Se o futuro e o passado existem, quero saber onde estão. Se ainda não sou capaz disso, pelo menos sei que, onde quer que estejam, não existem nem enquanto futuro, nem enquanto passado, mas apenas enquanto presentes. Porque, se o futuro ali estiver enquanto futuro, então ainda não existirá; se o passado aí estiver como passado, não existirá mais. Portanto, onde estiverem, do modo que estiverem, só podem existir como presentes. Quando narramos acontecimentos verídicos do passado, o que vem à nossa memória não são os próprios acontecimentos, que já deixaram de existir, mas termos concebidos de acordo com as imagens das coisas, as quais, atravessando nossos sentidos, gravaram em nosso espírito suas pegadas. Minha infância, por exemplo, que não existe mais, está em um passado que também desapareceu; mas quando eu a evoco e passo a narrá-la, é no presente que vejo sua imagem, porque essa imagem ainda está em minha memória. A predição do futuro seguiria o mesmo processo? Os acontecimentos que ainda não existem são representados antecipadamente em nosso espírito por imagens já existentes? Confesso, meu Deus, que eu o ignoro. Mas o que sei é que habitualmente premeditamos nossas ações futuras, e que essa premeditação pertence ao presente, ao passo que a ação premeditada ainda não existe, pois ainda é futura. Quando a empreendermos, e começarmos a realizar o que havíamos premeditado, então a ação começará a existir, porque então não será mais futura, mas presente.
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