Mas, como falaste? Porventura do mesmo modo como esta voz que, saindo da nuvem, diz: “Este é meu Filho bem-amado”? Essa voz fez-se ouvir e passou; teve começo e fim; suas sílabas ressoaram, depois passaram a segunda sucedendo à primeira, a terceira, à segunda, e assim por diante até a última, que vem depois de todas as outras — depois do que foi o silêncio. Por onde se vê clara e evidentemente que essa voz foi proferida pelo órgão móvel e temporal de uma criatura a serviço de tua vontade eterna. E essas tuas palavras, feitas no tempo, foram comunicadas pelo ouvido exterior à mente prudente, cujo ouvido interior está atento a teu Verbo eterno. Mas a mente comparou essas palavras que tinham soado no tempo com teu Verbo eterno no silêncio, e disse: “É diferente, muito diferente. Essas palavras estão muito abaixo de mim; nem sequer são, pois fogem e passam; mas o Verbo de meu Senhor permanece acima de mim eternamente.” Se, pois, é com palavras sonoras e passageiras que disseste “Façam-se o céu e a terra!”, se é assim que os criaste, é que já havia, antes do céu e da terra, uma criatura corporal, cujos movimentos temporais haviam feito vibrar essa voz no tempo. Mas não havia corpo algum antes do céu e da terra, ou se algum existia, tu certamente já o tinhas criado sem o intermédio de uma voz de palavras sucessivas, a fim de que precisamente pudesse ser criada por ti essa voz de palavras sucessivas que devia pronunciar “Façam-se o céu e a terra!” — porque um corpo, fosse o que fosse, condição da existência de tal voz, não teria existido se não o tivesses criado. Mas para criar esse corpo graças ao qual teriam podido ser emitidas essas palavras, de que palavra te serviste?
Remover destaque