Mas, Senhor, tu, o único que dominas sem vanglória, porque és o único Senhor verdadeiro, que não tens senhor, porventura cessou em mim, se isso pode acontecer nesta vida, esta terceira espécie de tentação, que consiste em querer ser temido e amado pelos homens, não por outro motivo, mas para daí tirar uma alegria que não é alegria? Que vida miserável, que vaidade indigna! Aí reside o principal motivo de nossa falta de amor e de temor piedoso para contigo. Por isso resistes aos soberbos, enquanto dás tua graça aos humildes. Trovejas contra as ambições do século, e as montanhas se abalam até os alicerces. Porque é necessário, para cumprir alguns deveres na sociedade, fazer-se amar e temer pelos homens, o inimigo de nossa verdadeira felicidade insta conosco, e por toda parte espalha laços gritando “Bravo! Bravo!”, a fim de que, em nossa avidez de recolher essas lisonjas, nos deixemos prender imprudentemente. Sua finalidade é fazer com que deixemos de colocar nossa alegria na verdade, para colocá-la na mentira dos homens; é que sentimos prazer em nos fazer temer e amar, não por ti, mas em teu lugar, e dessa maneira nos tornamos semelhantes a ele, não por uma união de caridade, mas para participar de seu suplício; porque ele quis estabelecer sua morada no aquilão, para fazer de nós, nas trevas e no frio, os escravos do perverso e sinuoso imitador de teu poder. Mas nós, Senhor, vê, somos tua pequenina grei: sê nosso dono. Estende tuas asas, para que nos sirvam de refúgio. Sê nossa glória; que nos amem por tua causa e que seja tua palavra temida em nós. Quem deseja ser louvado pelos homens, quando o reprovas, não será defendido pelos homens quando o condenares, e não poderá furtar-se à tua condenação. Mas quando não é um pecador o que é louvado nos desejos de sua alma, nem um artífice de iniquidades o que é abençoado, mas um homem que é louvado por algum dom que lhe concedeste — se ele se alegra mais com o louvor que recebe do que com o próprio dom pelo qual é louvado, também este é louvado enquanto tu o reprovas. E o que o louva é melhor do que o que é louvado, porque o que a um agradou é o dom de Deus; o outro preferiu ao dom de Deus o dom do homem.
Remover destaque