Mas que multidão de bagatelas miúdas e desprezíveis tenta cada dia nossa curiosidade! E quem poderia enumerar nossas quedas? Quantas vezes, quando nos contam banalidades, começamos por tolerá-las, para não ofender os fracos, e depois, pouco a pouco, passamos a dar-lhes atenção sempre crescente! Não vou mais ao circo para ver um cão correr atrás de uma lebre; mas, se por acaso passo pelo campo, e se me oferece esse espetáculo, eis-me interessado pela caçada, talvez até distraindo-me de algum pensamento profundo. E, se não chega a me fazer mudar a rota de minha montaria, sigo-a ao menos com o coração. E se, já demonstrada minha fraqueza, não me admoestares prontamente, ou a elevar-me a ti, a partir da própria visão, por alguma reflexão, ou a desprezar tudo e passar adiante, fico embotado em minha vaidade. E que dizer quando, sentado em minha casa, muitas vezes me prende a atenção uma lagartixa a caçar moscas, ou uma aranha a enredar em sua teia os insetos que nela caem? Acaso, por serem animais pequenos, o efeito que fazem em mim não é o mesmo? É verdade que depois passo a te louvar, Criador admirável, ordenador do Universo, mas não foi isso que primeiro me prendeu a atenção. Uma coisa é alguém levantar-se depressa, outra é não cair. E dessas quedas minha vida está cheia, e minha única esperança está em tua extrema misericórdia. Nosso coração torna-se receptáculo de semelhantes misérias, e leva em si uma multidão enorme de vaidades, que chegam muitas vezes até a interromper e perturbar nossas orações; e enquanto, em tua presença, levantamos a voz de nosso coração até teus ouvidos, esses pensamentos fúteis lançam-se sobre nós, não sei de onde, e vêm perturbar uma ação de tanta importância. Teremos também essas fraquezas como desprezíveis? Ou algo poderá restituir-nos a esperança, senão tua misericórdia inteira, já que começaste a transformar-nos?
Remover destaque